terça-feira, 14 de outubro de 2008

Entrevista com Chomsky

Reproduzo abaixo entrevista do filósofo Noam Chomsky ao Fernando Rodrigues, publicada na edição de hoje da Folha de S. Paulo:

Capitalismo seguirá igual, diz Chomsky
Crítico de Bush, lingüista diz que governo evita palavra "estatização" para que público não reivindique direito de interferir

Intelectual de esquerda descarta o surgimento de um novo capitalismo pós-crash, com maior presença do Estado na economia


FERNANDO RODRIGUES
ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK

Um dos intelectuais de esquerda mais respeitados do planeta, o lingüista Noam Chomsky, acha que a estatização total ou parcial do sistema financeiro dos EUA não vai ocorrer por causa da atual crise.
Colocaria em risco o que ele classifica de "tirania privada".
Por essa razão os governos do mundo desenvolvido evitam usar o termo até mesmo quando se trata de assumir o controle, ainda que só por algum tempo, de alguns bancos e corretoras que faliram por causa da crise atual.
Aos 79 anos, Chomsky leciona no MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das mais renomadas instituições de ensino superior dos EUA.
Para ele, se o governo norte-americano assumisse publicamente algumas de suas ações como "estatizações", abriria tecnicamente espaço para que os cidadãos do país também passassem a reivindicar o poder de interferir na condução do sistema. Até porque, diz o lingüista, "em princípio, o governo representa o público".
A possibilidade de um novo tipo de capitalismo surgir no pós-crash, com maior presença do Estado, é um cenário descartado por Chomsky. "A economia já é altamente dependente da dinâmica do setor estatal. É um sistema no qual o público paga os custos e assume os riscos, e os lucros são privados. Eu não vejo nenhuma indicação de que as instituições básicas do capitalismo de Estado estejam prestes a serem significativamente modificadas. É claro que a liberalização será reduzida, mas no interesse das instituições financeiras que vão sobreviver", diz ele.
A seguir, trechos da entrevistas de Chomsky concedida à Folha por e-mail.

FOLHA - Por que o governo dos EUA e banqueiros evitam expressões como "nacionalizar" ou "estatizar" ao falar dos pacotes de resgate para bancos nos quais haverá dinheiro público ou compra de ações pelo Estado?
NOAM CHOMSKY - Nós vivemos numa cultura altamente ideológica na qual "estatização" é uma palavra que põe medo, como "socialismo" (ou, para muitos, até "liberal"). A propósito, esse é um assunto sério. Se o Wells Fargo compra o Wachovia, então tudo fica dentro do setor privado -ou seja, dentro do sistema de tirania privada no qual o público não tem voz, em princípio. Dentro do sistema ideológico isso é chamado "livre mercado" e "democracia". Se [Henry] Paulson dá dinheiro público para bancos mas sem o direito de tomar decisões dentro dessas instituições, trata-se de um distanciamento da tirania pura chamada "liberdade", mas não muito. Se o governo adquire ações com poder de decisão dentro dos bancos, há sempre o risco de o público então também poder interferir -uma vez que, em princípio, o governo representa o público. Essa ameaça de democracia é muito mais severa para ser aceitável dentro do sistema doutrinário reinante.
Um aspecto intrigante do sistema é que o governo é visto como uma força externa, separada da população. E em muitos círculos, é interpretado como força opressora da população.
A idéia de o governo ser "para e pelo povo" é restrita a discursos patriotas e aulas de civismo nas escolas. Ou deveriam ser.

FOLHA - A onda de intervenção do Estados nas instituições financeiras será revertida no futuro ou haverá um novo cenário no qual mais bancos passarão de maneira perene a ser controlados pelo poder público?
CHOMSKY - A estatização completa é muito improvável pelas razões que eu mencionei. Uma ação nessa direção traria junto uma ameaça de democracia, ou seja, uma ameaça de o público se tornar envolvido nas tomadas de decisões sobre o sistema socioeconômico. O principal filósofo americano do século 20, John Dewey, observou que enquanto o público não ganhar controle efetivo das principais instituições da sociedade -financeiras, industriais, mídia etc.- a política permanecerá como "uma sombra dos negócios sobre a sociedade". Naturalmente, esse é o tipo de negócio que o mundo prefere. E a sua dominância sobre os sistemas doutrinários e políticos é tão enorme que a tirania privada é chamada de "democracia".
Já a ameaça de haver democracia real é chamada de "ameaça da tirania".

FOLHA - Esta é a pior crise econômica-financeira desde a Grande Depressão dos anos 30? Seria também o prenúncio de grandes mudanças no capitalismo como hoje o conhecemos?
CHOMSKY - Tem sido vista como a pior crise desde aquela época. Mas ainda não sabemos o quão severa será a crise econômica que está por vir.
Também acho que devemos ser cautelosos ao usar o termo "capitalismo". O sistemas existentes são de uma outra forma, um capitalismo de estado. Tem havido muita discussão sobre se o público deverá bancar o custo e o risco das operações de salvamentos dos bancos, mas essas lamentações -até por economistas que deveriam conhecer melhor as coisas- estão baseados na insatisfação ao se enfrentar a realidade de como a economia funciona.
A economia já é altamente dependente da dinâmica do setor estatal para que haja inovação e desenvolvimento. É um sistema no qual o público paga os custos e assume os riscos. Os lucros são privados. Eu não vejo nenhuma indicação de que as instituições básicas do capitalismo de Estado estejam prestes a serem significativamente modificadas. O sistema financeiro já foi alterado, com o colapso do modelo de bancos de investimentos. Já se reconheceu décadas atrás que a liberalização dos anos 70 embutiam um risco severo de crises repetidas e profundas. É claro que a liberalização será reduzida, mas no interesse das instituições financeiras que vão sobreviver. É possível que a retórica hipócrita do mercado fundamentalista seja também um pouco mais contida.

FOLHA - O sr. era jovem nos anos 30, mas vê semelhanças entre aquela crise a atual?
CHOMSKY - O desemprego era maior, mas essa é apenas uma das diferenças. Entre as semelhanças, creio que assim como naquela época, agora estamos indo em direção a um grande depressão.

FOLHA - Os últimos governos tomaram decisões liberalizantes para o mercado. Tanto o de George W. Bush como o de Bill Clinton -neste último, quebrando o muro que separava bancos comerciais de bancos de investimentos. Democratas e republicanos são igualmente responsáveis?
CHOMSKY - A responsabilidade pela situação atual é dos dois partidos. Alertas foram ignorados. No fundo, republicanos e democratas são ambos facções de um "partido dos negócios".
São um pouco diferentes, mas operam dentro da mesma estrutura institucional. Então não me parece ser uma surpresa que a culpa seja compartilhada. O problema é que essa discussão toda ignora o fato crucial da liberalização financeira: o seu impacto em solapar a democracia.

FOLHA - Quem o sr. acredita estar mais bem preparado para assumir a Casa Branca.
CHOMSKY - Barack Obama, provavelmente. Ao longo do tempo, a população se dá economicamente de maneira melhor com os democratas. Eles têm se movido à direita em políticas socioeconômicas. Mas John McCain é um descontrolado. É difícil saber o que ele poderia fazer. E os interesses que ele representa são extremamente perigosos para os EUA e para o mundo. Também para a esfera econômica.

FOLHA - Fala-se em num novo Bretton Woods, uma nova estrutura econômica mundial. Quem poderia liderar esse processo?
CHOMSKY - O poder ainda reside primeiramente nos EUA. Depois, na Europa. Apesar da diversificação na Ásia, o que vejo ainda é o G7 tomando a frente nesse papel de reformar o sistema.

FOLHA - Que tipo de capitalismo vai emergir da atual crise?
CHOMSKY - O capitalismo de Estado será provavelmente muito parecido ao atual, com um pouco mais de regulação e controle sobre as instituições financeiras, que serão reconstruídas (com os bancos de investimento). Mas não há indicações, pelo menos agora, de mudanças dramáticas.

sábado, 4 de outubro de 2008

Eleição e revolução

Estou atualmente ministrando um curso livre em que apresento uma leitura possível de conceitos-chave do pensamento marxista. Nesta semana, nas leituras deste curso, comentamos a "violência como parteira da história". É sempre curiosa a reação dos interlocutores quando lemos, em Marx, uma certa exaltação da violência - que eu, honestamente, entendo como simples tratamento explícito de algo invariavelmente presente, seja na manutenção ou na revolução social. Claro, vivemos em tempos de uma "cultura da paz", sem nos lembrar que como parte de "manter a paz", temos que "manter a ordem" e assim o status quo.

Em período eleitoral essa reflexão, sobre a violência necessária à transformação social, é especialmente interessante. Vemos pessoas momentaneamente envolvidas com política, esperançosas que um ou outro candidato, se e quando eleito, transformará a realidade. Vemos manifestações políticas, muitas vezes desastradas porque praticadas por inexperientes desorientados ou ingênuos politicamente, vindas das partes mais improváveis. Há quem não tenha feito política, pelo menos, nos últimos quatro anos, e agora, às vésperas das eleições, assume posturas, panfleta idéias, ainda que de forma desajeitada...
A crença, consciente ou não, no processo eleitoral talvez seja atualmente o maior ópio do povo. Não se faz revolução com, na ou pela eleição. Infelizmente.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O que é um filósofo?

O livro do filósofo reúne uma série de fragmentos e apontamentos que Nietzsche não publicou em vida. Inclui os textos O último filósofo. Considerações sobre o conflito entre arte e conhecimento, de 1872; O filósofo como médico da civilização, de 73; Introdução teorética sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral, do mesmo ano; e A ciência e a sabedoria em conflito, de 75.
É no Filósofo como médico da civilização que o martelador pergunta "O que é o filósofo?". Como resposta, Nietzsche aponta no decorrer do seu texto:

Ele parece
(a)um solitário
(b) o senhor das cem cabeças mais espirituais e mais abstratas
(c) ou ainda o odioso destruidor da civilização nacional
...
Existe uma relação necessária com o povo? Existe uma teleologia do filósofo?
Para a resposta deve-se saber o que se chama de "sua época": pode ser um período pequeno ou muito longo.
Tese essencial: ele não pode criar uma civilização, mas prepará-la, suprimindo os entraves ou moderando-a e assim conservando-a ou destruindo-a.
...
A respeito de todos os aspectos positivos de uma civilização, de uma religião, sua atitude é dissolver e destruir.
Ele é mais útil quando há muito o que destruir, nas épocas de caos e degeneração.


Mais adiante, falando sobre a filosofia, Nietzsche define:

Valor da filosofia:
Purificação de todas as representações confusas e supersticiosas. Contra o dogmatismo das ciências.
...
Atividade específica da filosofia para os tempos presentes.
Falta da ética popular
Falta do sentimento da importância do conhecimento e da escolha.
caráter superficial na consideração da Igreja, do Estado e da sociedade.
A raiva pela História.
A eloqüência da arte e a ausência de civilização.
...
Em uma palavra, todas as ciências sem sua aplicação prática: conduzidas portanto de tal maneira que não formam os verdadeiros homens da civilização. A ciência concebida como um bordado!
Vós praticais a filosofia com jovens sem experiência: vossos velhos voltaram-se para a História. Não tendes de nenhum mundo uma filosofia popular, mas, ao contrário, conferências populares vergonhosamente uniformes. Temas de composição sobre Schopenhauer propostos pelas universidades aos estudantes! Discursos populares sobre Schopenhauer! Uma total falta de dignidade.


Pensador controverso, assumidamente contraditório, Nietzsche sempre me faz pensar. Talvez só ele fosse suficientemente super-homem para apresentar no cartão de visitas, abaixo do seu nome, a profissão "Filósofo". Talvez pensasse algo parecido (sobretudo se considerados os últimos dizeres aqui transcritos, sobre a incapacidade dos estudantes versarem sobre Schopenhauer...).
Mas não deixo de ver certo sentido no entendimento do papel destrutivo (ao menos se entendido como desmistificador) da filosofia.
Coisas a se pensar...


O livro do filósofo foi publicado no Brasil pela Centauro Editora. Tradução de Rubens Eduardo Ferreira Frias.

(Obs.: Filosofia como desmistificadora: sim a imagem é de Nietzsche. Não, ele não nasceu com bigode)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Filosofia só na Europa!

Por motivos diversos tenho nas últimas semanas me empenhado em buscar definições e sentidos dados por autores vários ao ato de filosofar. Numa palavra, tenho procurado entender o que os grandes filósofos entendiam por filosofia e por filosofar.
Os resultados são tão variados quanto interessantes. Muitas vezes opostos.
Heidegger, por exemplo, diz que eu - e provavelmente você - não podemos ser filósofos. Isso não só porque a filosofia é exclusivamente européia, como porque "o Ocidente e a Europa, e somente eles," são "filosóficos".
Dou-me o direito de discordar. Afinal, Heidegger fala dos caminhos por onde costumo passar com a mesma propriedade com que eu falaria da sua Alemanha...
O texto heideggeriano nos ajuda a manter viva a desconfiança dos escritos dos grandes filósofos (sim, sim, apesar disso ele é um grande filósofo):

A palavra philosophía diz-nos que a filosofia é algo que pela primeira vez e antes de tudo vinca a existência do mundo grego. Não só isto — a philosophía determina também a linha mestra de nossa história ocidental-européia. A batida expressão “filosofia ocidental-européia” é, na verdade, uma tautologia. Por quê? Porque a ‘filosofia” é grega em sua essência —e grego aqui significa: a filosofia é nas origens de sua essência de tal natureza que ela primeiro se apoderou do mundo grego e só dele, usando-o para se desenvolver.

Mas a essência originariamente grega da filosofia é dirigida e dominada, na época de sua vigência na Modernidade Européia, por representações do cristianismo. A hegemonia destas representações é mediada pela Idade Média. Entretanto, não se pode dizer que por isto a filosofia se tornou cristã, quer dizer, uma tarefa da fé na revelação e na autoridade da Igreja. A frase: a filosofia é grega em sua essência, não diz outra coisa que: o Ocidente e a Europa, e somente eles, são, na marcha mais íntima de sua história, originariamente “filosóficos”. Isto é atestado pelo surto e domínio das ciências. Pelo fato de elas brotarem da marcha mais íntima da história ocidental-européia, o que vale dizer do processo da filosofia, são elas capazes de marcar hoje, com seu cunho específico, a história da humanidade pelo orbe terrestre.


Extraído de "O que é isso - a filosofia?", de Martin Heidegger. Tradução de E. Stein.

Evento: ética e pesquisa com animais

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