O conjunto das teses de Marx (postagem abaixo) parecem apontar para alguns poucos caminhos comuns, dentre os quais a dimensão prática da Filosofia. Trata-se de uma crítica à filosofia de gabinete, fechada sobre a escrivaninha do seu autor ou restrita às bibliotecas e aos círculos acadêmicos.
Lembro-me que Descartes também criticava essa filosofia distante da realidade, solta do mundo existente, desenraizada. No Discurso do Método ele não poupava críticas aos filósofos do seu tempo, que produziam filosofias distantes da realidade vivida. Mas o próprio Descartes, para escrever seus discursos e meditações, tracava-se isolado num quarto onde ninguém poderia incomodá-lo...
Isso faz pensar que, em se tratando de Filosofia, até mesmo o conceito de uma "filosofia prática" precisa ser esclarecido. A prática de Descartes, parece, era bem diferente da prática de Marx.
No mundo da filosofia há uma brincadeira sobre os diferentes grupos de estudiosos de Marx - grupos que têm interpretações diferentes, e ficam se degladiando (não na prática, apenas em teoria): diz-se que existem marxistas, marxianos e marxólogos. Eu não vou entrar no mérito de quem é quem nessa história. Mas não sei se muitos destes estudiosos, seja de qual grupo for, seguem de fato a dimensão prática presente em Marx - lembremos que ele foi militante político, atuando como dirigente comunista. A maioria dos marxistas-anos-ólogos que temos notícias se detém no estudo teórico. Talvez como cartesianos estudiosos da teoria emanada de Marx.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Teses de Marx sobre Feuerbach
Um dos textos certamente mais referidos nos diálogos e escritos filosóficos é justamente composto por estas breves teses de Marx sobre Feuerbach. No geral, cita-se a última das teses, mais difundida, o que me faz pensar se as demais também foram lidas pelos 'citadores'.
Dada a brevidade e importância do texto, aproveito a oportunidade para transcrevê-las aqui no blog:
Dada a brevidade e importância do texto, aproveito a oportunidade para transcrevê-las aqui no blog:
TESES SOBRE FEUERBACH
Karl Marx
Karl Marx
I - O defeito fundamental de todo materialismo anterior - inclusive o de Feuerbach - está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em posição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, só considera como autenticamente humana a atividade teórica, enquanto a prática somente é concebida e fixada em sua manifestação judia grosseira. Portanto, não compreende a importância da atuação "revolucionária", prático-crítica.
II - O problema de se ao pensamento humano corresponde uma verdade objetiva não é um problema da teoria, e sim um pro blema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade, e a força, o caráter terreno de seu pensamento. O debate sobre a realidade ou a irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico.
III - A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade (como, por exemplo, em Robert Owen). A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora.
IV - Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, do desdobramento do mundo em um mundo religioso, imaginário, e outro real. Sua tarefa consiste em decompor o mundo religioso em sua base terrena. Não vê que, uma vez realizado esse trabalho, o principal continua por fazer. Na realidade, o fato de que a base terrena se separe de si mesma e fixe nas nuvens um reino independente só pode ser explicado através da dilaceração interna e da contradição desse fundamento terreno consigo mesmo. Este último deve, portanto, primeiro ser compreendido em sua contradição e em seguida revolucionado praticamente mediante a eliminação da contradição. Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo na família terrena o segredo da sagrada família, é preciso criticar teoricamente aquela e transformá-la praticamente.
V - Não satisfeito com o pensamento abstrato, Feuerbach recorre à percepção sensível. Não concebe, porém, a sensibilidade como uma atividade prática, humano-sensível.
VI - Feuerbach dilui a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é algo abstrato, interior a cada indivíduo isolado. É, em sua realidade, o conjunto das relações sociais. Feuerbach, que não emprende a critica dessa essência real, vê-se, portanto, obrigado 1- a fazer caso omisso da trajetória histórica, fixar o sentimento religioso em si mesmo e pressupor um indivíduo humano abstrato, isolado; 2 - nele, a essência humana só pode ser concebida como "espécie", como generalidade interna, muda, que se limita a unir naturalmente os muitos indivíduos.
VII - Feuerbach não vê, portanto, que o "sentimento religioso" é, também, um produto social e que o indivíduo abstrato que ele analisa pertence, na realidade, a uma forma determinada de sociedade.
VIII - A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que desviam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.
IX - O máximo a que chega o materialismo perceptivo, isto é, o materialismo que não concebe a sensibilidade como uma atividade prática, é a percepção dos diferentes indivíduos isolados da "sociedade civil".
X - O ponto-de-vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o do novo materialismo, a sociedade humana ou a humanidade socializada.
XI - Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo.
III - A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade (como, por exemplo, em Robert Owen). A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora.
IV - Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, do desdobramento do mundo em um mundo religioso, imaginário, e outro real. Sua tarefa consiste em decompor o mundo religioso em sua base terrena. Não vê que, uma vez realizado esse trabalho, o principal continua por fazer. Na realidade, o fato de que a base terrena se separe de si mesma e fixe nas nuvens um reino independente só pode ser explicado através da dilaceração interna e da contradição desse fundamento terreno consigo mesmo. Este último deve, portanto, primeiro ser compreendido em sua contradição e em seguida revolucionado praticamente mediante a eliminação da contradição. Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo na família terrena o segredo da sagrada família, é preciso criticar teoricamente aquela e transformá-la praticamente.
V - Não satisfeito com o pensamento abstrato, Feuerbach recorre à percepção sensível. Não concebe, porém, a sensibilidade como uma atividade prática, humano-sensível.
VI - Feuerbach dilui a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é algo abstrato, interior a cada indivíduo isolado. É, em sua realidade, o conjunto das relações sociais. Feuerbach, que não emprende a critica dessa essência real, vê-se, portanto, obrigado 1- a fazer caso omisso da trajetória histórica, fixar o sentimento religioso em si mesmo e pressupor um indivíduo humano abstrato, isolado; 2 - nele, a essência humana só pode ser concebida como "espécie", como generalidade interna, muda, que se limita a unir naturalmente os muitos indivíduos.
VII - Feuerbach não vê, portanto, que o "sentimento religioso" é, também, um produto social e que o indivíduo abstrato que ele analisa pertence, na realidade, a uma forma determinada de sociedade.
VIII - A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que desviam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.
IX - O máximo a que chega o materialismo perceptivo, isto é, o materialismo que não concebe a sensibilidade como uma atividade prática, é a percepção dos diferentes indivíduos isolados da "sociedade civil".
X - O ponto-de-vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o do novo materialismo, a sociedade humana ou a humanidade socializada.
XI - Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Pra que(m) serve a Filosofia?
Motivado pela postagem abaixo, da Larissa, me coloquei a pensar em outro aspecto da mesma questão: pra quem serve a Filosofia. Ou mais precisamente, pra quem ela não serve, é prejudicial, um algo a ser eliminado.É fato que a Filosofia se caracteriza pela postura de estranhamento do cotidiano: o "espantar-se" diante de um fato qualquer marca o início de uma reflexão mais aprofundada, diferente daquela reflexão superficial de quem olha sem espanto para um objeto rotineiro.Eu, pessoalmente, não compartilho com a idéias de alguns colegas de profissão, que entendem que apenas os iniciados na filosofia são capazes de pensar ou refletir. Acredito que haja uma postura reflexiva mesmo no mais manipulado dos sensos comuns - se não a houvesse, não haveria também a possibilidade de manipulação.O fato é que a Filosofia chama por uma postura mais aprofundada de reflexão crítica, a qual não interessa àqueles e àquelas que ganham com as incoerências de um sistema político-econômico. Frente a uma população crítica, não existiria tanto espaço para ganhos lícitos e ilícitos que nos espantam (uso o termo "espantam" filosoficamente falando. Eu me espantei ao ver o lucro divulgado pelos grandes bancos, a corrupção sentada na cadeira da presidência do Senado Federal e também ao ver o valor do salário mínimo!).Da primeira pergunta - a quem não interessa a filosofia - surge uma outra: e eu, estou de que lado nesse jogo de interesses... ?
[Reproduzo aqui a postagem da minha amiga Larissa, publicada no blog do NEFIC]
Terça-feira, 7 de Agosto de 2007
Pra que serve a Filosofia?
Hoje me perguntaram: pra que serve a filosofia? E até para quem convive com ela essa pergunta é difícil...Tive que recorrer a dois filósofos muito especiais. Lembrei de um de nossos encontros em que, tentando responder a essa pergunta, o professor Daniel disse que a Filosofia não serve a ninguém, o que mostra sua primeira faceta: a liberdade. Se a Filosofia não servir para nada, ao menos ela nos torna mais livres. E para completar a explicação, lembrei do professor Marcos dizendo que qualquer um ficaria ofendido se lhe fosse perguntado: para que serve sua mãe? Ora, sua me não tem serventia, sua mãe tem valor. Com a Filosofia também é assim... Mas valor é algo subjetivo, particular. O que me leva a concluir que a Filosofia não serve mesmo para muita coisa, a menos que você já tenha sentido através dela o sabor da liberdade... depois disso, ela não precisa mais ter utilidade pois passa a ser valiosa.
[Reproduzo aqui a postagem da minha amiga Larissa, publicada no blog do NEFIC]
Terça-feira, 7 de Agosto de 2007
Pra que serve a Filosofia?
Hoje me perguntaram: pra que serve a filosofia? E até para quem convive com ela essa pergunta é difícil...Tive que recorrer a dois filósofos muito especiais. Lembrei de um de nossos encontros em que, tentando responder a essa pergunta, o professor Daniel disse que a Filosofia não serve a ninguém, o que mostra sua primeira faceta: a liberdade. Se a Filosofia não servir para nada, ao menos ela nos torna mais livres. E para completar a explicação, lembrei do professor Marcos dizendo que qualquer um ficaria ofendido se lhe fosse perguntado: para que serve sua mãe? Ora, sua me não tem serventia, sua mãe tem valor. Com a Filosofia também é assim... Mas valor é algo subjetivo, particular. O que me leva a concluir que a Filosofia não serve mesmo para muita coisa, a menos que você já tenha sentido através dela o sabor da liberdade... depois disso, ela não precisa mais ter utilidade pois passa a ser valiosa.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Um pouco de diversão
Pra quem acha que filosofia é coisa demasiado séria, vai um pouco de brincadeira.
Porque ninguém é de ferro. Ou é?
http://www.youtube.com/watch?v=moWZm66J_yM
Porque ninguém é de ferro. Ou é?
http://www.youtube.com/watch?v=moWZm66J_yM
sábado, 11 de agosto de 2007
Notícias desta América
Desde meados do meu curso de graduação, venho estudando ininterruptamente a Filosofia Latino-americana. Este é, ainda hoje, meu tema de pesquisa no doutorado.
O assunto não é muito bem quisto nos exigentes círculos filosóficos (pergunto: você é capaz de citar o nome de 5 filósofos latino-americanos e suas principais obras?). São raras as oportunidades de ver este assunto em pauta na Academia. Por isso, fico muito feliz em utilizar este Blog para ajudar a divulgar 2 cursos de pós-graduação sobre o pensamento latino-americano.
O primeiro é o curso de especialização em "Filosofia, Educação e Pensamento Social na América Latina", oferecido pela Universidade Metodista de São Paulo, sob coordenação dos professores Oswaldo de Oliveira Santos Jr. e Suze de Oliveira Piza. Eu estou escalado para o corpo docente deste curso. Clique aqui para informações.
O outro é oferecido pelo IFiL - Instituto de Filosofia da Libertação, de Curitiba/PR. Trata-se do curso de especialização "O Pensamento Filosófico Latino-americano". Clique aqui para mais informações.
São raras oportunidades como esta, em que se vê dois bons cursos sobre este tema sendo oferecidos à comunidade acadêmica. Fica um fundo de esperança, de que novos ares circulem em meio ao nosso europeizado mundo dos filósofos.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
O lucro
Já que eu entrei na onda dos quadrinhos,
Não dá pra deixar de se espantar com mais essa.
O problema é que, com tanto espanto, a filosofia pode virar banalidade. Resta buscar a 'causa inicial' dos espantos.
Não dá pra deixar de se espantar com mais essa.
O problema é que, com tanto espanto, a filosofia pode virar banalidade. Resta buscar a 'causa inicial' dos espantos.[Esta charge foi publicada no jornal Correio Popular]
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Espanto
É sabido que desde os filósofos clássicos se entende que a postura filosófica começa com o espanto, ou com a admiração. A atitude de espantar-se diante de algo, sobretudo se este algo for objeto pelo qual normalmente se 'passa batido', é o princípio da possibilidade uma reflexão que poderá se tornar filosófica. Espantar-se diante do cotidiano, admirá-lo, é oportunidade de refletir sobre o não-refletido.
Esta semana, numa aula de Filosofia, usei um exemplo prático para exemplificar esta atitude de 'refletir sobre o não-refletido' - e este exemplo ficou na minha cabeça desde então. Não que seja algo extraordinário, na verdade é bastante óbvio, mas muito significativo. Na ocasião, eu disse que me espanta perceber como é comum encontrar em nossa televisão programas do porte do Domingão do Faustão, que estão no ar há mais de uma (talvez duas) décadas...
Nesta série de tirinhas, publicada pelo Caco na Folha de S. Paulo, o Chico Bacon teve o cérebro engolido pelo zumbi (ou algo do tipo). Em uma das tirinhas anteriores, o tal papa-cérebros recusou degustar uma cabeça pelo fato do seu dono ser especialista em filosofia fenomenológica - alegou que causava indigestão!?!
Mas para a TV, parece, não se precisa de cérebro. E o pior é que não há muita gente que se espante com isso...
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