quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Tolices admiráveis

Estas breves reflexões são extraídas do Almanaque para 1949, do Barão de Itararé, e levam o título de"Tolices Admiráveis. Certamente influenciado por estudar filosofia, não deixo de ver nas reflexões a figura do filósofo, que admira-se de tudo, passando por tolo:


A vida tem surpresas alucinantes. Surpresas e lições de estarrecer.

Ha certos fatos, porem, que não nos causam nenhuma admiração, não porque não sejam em si admiraveis, mas porque nos deixam simplesmente tão bestificados que nos tiram até a capacidade de raciocinar.

É verdade que a faculdade de abrir mais ou menos a boca, movida pelo espanto, varia de individuo para individuo. uns esbugalham os olhos, diante do fenomeno mais natural, ao passo que outros acham mais do que natural o fenomeno mais esbugalhante.

Os que se julgam espertos, acham que a admiração é um alarmante sintoma de ignorancia e por isso, afirmam que só o tolos se admiram. Os que se maravilham de qualquer coisa, por sua vez, se surpreendem tambem da impassibilidade dos sabidos, aos quais consideram como lamentaveis cegos e inconscientes.

O ladino se admira do tolo e não pode compreender como este se possa admirar de uma bobagem. O tolo, por seu turno, se admira de que o ladino não se admire de coisa alguma, quando ele acha tudo admiravel.

O tolo se admira de tudo porque vê em tudo uma verdade para admirar. O tolo, então, raciocina e tira uma conclusão. e, portanto, não é tolo.

O inteligente vê o fenomeno e não se admira, porque não vê nada de admiravel no que vê. Mas o homem que não chega a ver o que até os tolos vêem, não pode ser um homem inteligente.

De tudo isso só se pode concluir que o tolo, afinal, é um inteligente e que o inteligente é um tolo.

É ou não é admiravel?


(foi mantida a grafia original)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ética, de Spinoza


A Autêntica Editora, de Belo Horizonte, publicou no ano passado uma belíssima edição da Ética, de Benedictus de Spinoza. A edição bilíngüe - Latim-Português, traduzida por Tomaz Tadeu - ajuda a reavivar a leitura de um autor não raramente esquecido (apesar dos esforços da profa. Marilena Chauí, e mesmo da evidente inspiração causada no quase pop André Comte-Sponville, não tenho visto muito sobre Spinoza por aí...).
Para provocar a curiosidade de eventuais desavisados, segue a tábua de assuntos tal como descrita pelo filósofo holandês no início de sua obra:

ÉTICA
Demonstrada segundo a ordem geométrica,
e dividida em cinco partes
nas quais são tratados

I. Deus
II. A natureza e a origem da mente
III. A origem e a natureza dos afetos
IV. A servidão humana ou a força dos afetos
V. A potência do intelecto ou a liberdade humana

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sobre o prazer

Semana passada coordenei uma mesa de dabetes na UMESP, que teve por tema Filosofia além da tradição e contou com a participação dos professores Wesley Dourado, Suze Piza e Marcos Euzebio. Em função desta mesa, eu retomei há umas duas semanas minhas leituras dos filósofos chamados hedonistas - ainda que, em verdade, muitos não o sejam: para ganhar esse título, filosoficamente despresível aos olhos da tradição, parece bastar colocar-se como não-totalmente-metafísico...
Não sei se por acaso, justamente na semana passada uma colega comentou que este Blog só tem tratado de questões políticas...
Juntando os fatos, resolvi colocar-me sobre o prazer (ou em cima dele?), usando para isso uma breve poesia de Drummond, que sempre me desperta certa animalidade:

A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão,
e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre a "crise"

A crise econômica é o tema da vez. É verdade que, até o momento, mais por interesses dos grandes investidores, representados pela mídia, do que por sua influência na vida do cidadão médio (no meu cotidiano, até agora, a única influência percebida foi justamente a pauta do noticiário...). Mas não deixa de ser interessante observar - como muitos têm apontado - que: (1) o velho pensamento econômico marxista, com sua lucidez, é uma das maiores fontes que tem ajudado os economistas - de esquerda e de direita - a interpretar os fatos recentes; (2) as soluções que vem sendo tentadas invariavelmente implicam em interferência do Estado na economia, princípio defendido pelo socialismo (marxista) e invariavelmente execrado pelo liberalismo e neo-liberalismo. Ou seja, quando a crise aperta, quando não é mais possível "brincar" com abstrações econômicas, tomando-as como verdade, voltamos a Marx.
As duas charges abaixo brincam com essa questão. Ajudam a pensar...



quarta-feira, 29 de outubro de 2008

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Razões Oprimidas

Um dos diversos temas filosóficos que me inquietam há algum tempo é a questão da racionalidade. Por um lado, instiga-me pensar que não somos exatamente animais racionais - bem , é verdade que entendo com facilidade a concepção de que o ser humano não é um animal racional, mas um animal que tem a racionalidade ao lado de outras faculdades; por outro, instiga-me pensar que, se nos entendermos como animais racionais, estaremos necessariamente presos ao projeto da modernidade, que já tem no modelo antropológico eurocêntrico, quiçá iluminista, seu ideal.
Para nenhuma dessas duas reflexões, acima, tenho respostas. Se por um lado concebo o ser humano como muito-mais-que-racionalidade, por outro entendo-o (entendo-me, portanto) como racional-e-algo-mais... Se, por outro, concebo a racionalidade como parte do projeto da modernidade (para saber mais sobre isso, veja a introdução de Enrique Dussel ao livro Ética da Libertação, ao não ver-me como a-racional não vejo-me como a-moderno e, portanto, não vejo-me como a-europeu. Contrariado, talvez, sou obrigado a concordar com meu amigo prof. Marcos Sidnei ao afirmar que o projeto da modernidade nunca falhou...
Angustiado, pensando nestas questões, percebo nos estudos recentes do prof. José Eustáquio Romão, uma alternativa. Romão tem defendido que o problema não é o fato da filosofia, eurocêntrica, ser racional; mas sim o fato da racionalidade aceita pela filosofia como base e instrumento filosófico estar no singular. Segundo ele não há uma racionalidade, mas racionalidades. E, ainda segundo ele, o mundo globalizado abre espaço e exige que se manifeste uma racionalidade oprimida, não-eurocêntrica.
O prof. Romão falará sobre essa questão no próximo dia 30/10, na FEUSP, em evento aberto ao público, como segue:

A ÁREA TEMÁTICA de FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO E

O NUCLEO de ESTUDO e PESQUISA EM FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

NEPEFE

convidam para a sessão dos

SEMINÁRIOS ABERTOS
DE FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Dia: 30 de outubro de 2008
14:00-17:00 h. Faculdade de Educação / USP

Av. da Universidade, 308 - Cidade Universitária
Sala 103, Bloco B



Tema:

As razões oprimidas no mundo em globalização.

Expositor:



José Eustáquio Romão

Graduado em História, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1970) e Doutorado em Educação (1996), pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professor do curso de Mestrado em Educação, na Universidade Nove de Julho (Uninove), em São Paulo (Brasil), onde coordena o Grupo de Pesquisa Culturas e Educação. É professor visitante da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT), de Lisboa (Portugal). Atuou como coordenador e professor dos programas de mestrado (Educação, Letras e Psicologia) do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF). É um dos fundadores do Instituto Paulo Freire e coordenador da Cátedra do Oprimido, vinculada à Universitas Paulo Freire (Unifreire).

É autor de vários livros, dentre os quais se destacam: Poder local e educação (1992), Avaliação dialógica (1998); Dialética da diferença (2000); Pedagogia dialógica (2002), além de mais de três dezenas de artigos, publicados em periódicos científicos nacionais e estrangeiros.

Tem vasta experiência na área de administração escolar: foi Secretário da Educação de Juiz de Fora (1983-1988) e de Governo (1997-2000) desta mesma cidade. Foi Pró-Reitor de Ensino e Pesquisa da Universidade Federal de Juiz de Fora; Coordenador Local das Licenciaturas em Tefé, Amazonas. Desenvolve estudos sobre o pensamento de Paulo Freire, estendendo-o para uma Teoria da Civilização do Oprimido, isto é, demonstrando que os oprimidos e as oprimidas é que fazem o avanço das ciências, das tecnologias e das artes.