sábado, 29 de dezembro de 2007

Revistas on line

Reproduzo abaixo acesso para alguns sites que disponibilizam material on line, recentemente divulgados:

Revista Natureza Humana (clique aqui) - publicação do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GrupoFPP) do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUCSP e da Sociedade Brasileira de Fenomenologia (SBF).

Revista Eletrônica Controversa (clique aqui) - publicação da área de Ética e Filosofia Social, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos.

Revista Ipech Digital (clique aqui) - publicação multidisciplinar do Instituto de Pesquisa Científica e Humanística.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Artigos para publicação

A Universidade Estadual de Maringá (UEM) publica quadrimestralmente a Revista Acadêmica Multidisciplinar Urutágua, sob coordenação do prof. Antonio Ozaí. Trata-se de uma revista eletrônica, voltada especialmente (mas não exclusivamente) para publicação de artigos produzidos por discentes da graduação.
Artigos para a edição nº 15 serão recebidos até 15/02/2008. Veja os links abaixo:
Link para a edição atual da revista - clique aqui
Link para a página com as normas para evnio de artigos - clique aqui

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Filosofia da educação

Um amigo me pediu que elaborasse uma lista de referências clássicas da filosofia da educação*. As orientações foram mais ou menos as seguintes:
- 20 obras
- Apenas 1 obra de cada autor
- Mesclar orbras clássicas (prioritariamente) com obras de caráter mais didático.
Pessoalmente, entendo que educação é um processo que envolve, dentre outros elementos, o ser humano e o conhecimento, de modo que costumo utilizar em cursos de filosofia da educação obras que abordam quaisquer destes elementos. Nesta lista, todavia, procurei incluir apenas obras quer tratassem do tema específico ou, no máximo, obras filosóficas que envolvessem o tema educação.
Tentei, ainda, garantir uma ceta diversidade temática. Talvez a única exceção seja uma obra histórica (do Manacorda), que julguei relevante para compreender o momento histórico em que se fazia a filosofia (da educação).
Bem, após tantas delongas, segue abaixo a minha lista inicial, elaborada às pressas. Publico-a com dois objetivos: primeiro, dar referências iniciais a quem procura estudar esse tema; segundo, pedir aos colegas que colaborem, indicando quais obras incluir (e, para manter o limite de 20 indicações, quais excluir) da lista.

Aí vão as indicações, em ordem alfabética de autor:

ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de estado. 10.ed. São Paulo: Graal, 2007.

COMENIUS. Didática magna. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

DEWEY, J. Democracy and education. Nova Iorque: Simon & Schuster, 1997.

DUSSEL, E. La pedagógica latinoamericana. Bogotá: Nueva América, 1980. (disponível em espanhol em www.ifil.org/dussel)

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 33.ed. Petrópolis: Vozes, 2007.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 25.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

GRAMSCI, A. Os intelectuais e a organização da cultura. 4.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

ILLICH, I. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1973.

JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

KANT, I. Sobre a pedagogia. 2.ed. Piracicaba: UNIMEP, 1999.

LIPMAN, M. Filosofia na sala de aula. São Paulo: Nova Alexandria, 2001.

MANACORDA, M. História da educação: da antigüidade aos nossos dias. 10.ed. São Paulo: Cortez, 2002.

MARX, K; ENGELS, F. Textos sobre educação e ensino. 2.ed. São Paulo: Moraes, 1992.

MENDES, D. T. e outros. Filosofia da educação brasileira. 6.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

NIETZSCHE, F. Schopenhauer como educador. Madrid: Biblioteca Nueva, 2000.

PLATÃO. Protágoras. (disponível em inglês e em espanhol em www.dominiopublico.gov.br)

ROUSSEAU, J.J. Emílio ou da educação. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

SUCHODOLSKI, BOGDAN. A pedagogia e as grandes correntes filosóficas. 5.ed. Lisboa: Livros Horizonte, 2000.

TEIXEIRA, A. Pequena introdução à filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

VVAA. Dicionário de filosofia da educação. Porto: Porto Editora, 2007.


*Curiosamente, recebi 3 solicitações semelhantes a essa nos últimos dias. Publicarei as outras em breve, no Blog

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Off line

Há sempre tantas coisas por fazer e tão pouco tempo pra fazê-las... (na verdade, o tempo é o mesmo, eu acho)
Com a rotina das aulas e outras atividades na Universidade, sobra sempre pouco tempo para dedicar a outros projetos, alguns até acadêmicos. Por isso, vou aproveitar as férias para retomar coisas que ficaram paradas ao longo do semestre.
E isso implica em deixar o Blog "off line" por algum tempo. Durante as férias, as postagens serão menos regulares e em menor volume... mas vez ou outra passarei por aqui.
Até mais!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A astúcia da experiência

Ontem foi um dia "cheio" na política brasileira, em especial no Senado Federal. A sessão plenária do senado acabou depois da 1h da madrugada (e alguns poucos brasileiros, dentre os quais eu, acompanhou a sessão pela TV Senado) e desaprovou a continuidade da CPMF. Já falei sobre isso há alguns dias, então vou poupar comentários (não consigo deixar de dizer que até o mercado financeiro achou a decisão ruim... além dos políticos do PSDB e do DEM, que tinham a intenção de prejudicar o governo, sem se preocupar com a realidade do Brasil, acho que ninguém mais era contrário à prorrogação).
Mas eu achei muito interessante a eleição do novo presidente do Senado. O Renan, embora absolvido 2 vezes, renunciou à presidência da casa. E todos - todos mesmo, do presidente Lula ao conjunto dos senadores da base governista - apoiavam a candidatura de José Sarney ao cargo de presidente do Senado Federal. Sarney já foi presidente da República (ele era vice do Tancredo, com quem morreram logo após eleito) e 2 vezes presidente do Senado. Mas agora, com todo esse apoio, Sarney recusou-se a assumir o cargo.
Político experiente. Sabia que depois de Renan, qualquer um que ocupasse a presidência do Senado seria investigado até a alma. Penso que o ex-presidente achou por bem evitar essa exposição, que, quem sabe, poderia derrubá-lo...
Assim, desde ontem o presidente do Senado é Garibaldi Alves. Um político que muitos consideram "modesto", possivelmente sem grandes envolvimentos com grandes maracutaias. E uma vez mais 3º maior cargo na hierarquia da República fica ocupado por um senador da bancada norte-nordeste (Garibalde, o alves, não o Giuseppe, representa o povo do Rio Grande do Norte).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Jaguaribe, Gleiser e Morin

Durante este 2º semestre de 2007 o Fórum Permanente de Cultura Contemporânea Universo do Conhecimento realizou um ciclo de 3 conferências tendo como tema central A humanidade no Século XXI. Os conferencistas foram Helio Jaguaribe, Marcelo Gleiser e Edgar Morin.
Estão disponíveis on line os vídeos e transcrições das duas primeiras conferências. A terceira, de Morin, deverá ser disponibilizada em breve.
Para acessar diretamente as páginas das conferências, na lista abaixo.
Helio Jaguaribe - clique aqui
Marcelo Gleiser - clique aqui
Edgar Morin - clique aqui

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

País tropical, abençoado...

Só prá lembrar que filosofia se faz com espanto: Imagine há 10 anos alguém dizer que no Brasil temos furacões e terremotos? E aquela história do país abençoado por deus e bonito por natureza?
Duas observações sobre isso, da mais sutil para a mais preocupante:
1. Os cientistas ainda afirmam que não temos furacões no Brasil. Segundo eles, o que ocorreu foi um "ciclone extra-tropical" (mas eu juro que eu nunca tinha ouvido falar disso...). Agora, imagino, vão inventar uma forma de salvar a teoria das placas tectônicas (ou será que a placa sobre a qual estamos rachou? será que tem garantia do fabricante??)
2. Será que o mundo vai continuar se portando como se a natureza não estivesse emitindo sinais um tanto quanto evidentes de que as coisas não vão bem? (o discurso ambiental está sendo feito, mas a ação.......)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Debate: progressão continuada

Reproduzo abaixo convite para evento que discutirá um dos bons temas da educação atual: a progressão continuada. Se é verdade que essaa prática vem sendo implantada de maneira contraproducente, "mandando pra frente" alunos que não condizem com as séries mais avançadas da educação, também é verdade que as críticas banais em nada ajudam (quantas vezes eu ouvi que a progressão continuada é a vilã da educação... e em nenhuma destas vezes a realidade mudou um centímetro...).
Ao que parece, o debate será centrado e fundamentado, o que é raro na discussão sobre esse tema.

Evento vai discutir a progressão continuada nas escolas públicas de SP


O "Agora" vai promover na próxima terça-feira, dia 11/12, um debate sobre o sistema de progressão continuada nas escolas públicas de São Paulo.
O evento terá a participação de Wilma Delboni, diretora de estudos de normas pedagógicas da Secretaria de Estado da Educação; Carlos Ramiro, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo); e Zoraide Faustinoni mestre em educação e pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
No debate, os participantes falarão sobre a progressão continuada nas escolas do Estado. O sistema, implantado nos anos 90 com o objetivo de diminuir as taxas de repetência e a evasão escolar, prevê que os alunos sejam aprovados anualmente e passem por avaliação ao final de cada ciclo (4ª e 8ª série), quando podem ser reprovados, caso não alcancem o nível de conhecimento esperado.
Os convidados discutirão a implantação do modelo, os erros e os acertos do sistema no decorrer dos anos, as mudanças previstas pelo governo do Estado para 2008 e as propostas de soluções para os problemas encontrados até agora.
A platéia poderá fazer perguntas aos integrantes da mesa. A mediação do debate ficará a cargo do jornalista Antonio Rocha Filho, secretário de Redação do "Agora".
O evento será realizado no auditório da Folha (al. Barão de Limeira, 425, 9º andar, na região central), das 19h às 21h. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo telefone (0/xx/11) 3224-5907, nos dias úteis, das 10h às 12h e das 15h às 18h, ou em www.agora.com.br/eventos.
Agora, 9 dez. 2007.

sábado, 8 de dezembro de 2007

A favor da CPMF. Sim!

Um dos assuntos em pauta é a prorrogação ou não da CPMF. O governo já teve que lotear um bocado de cargos públicos, emendas orçamentárias etc., e ainda não conseguiu do Congresso Nacional a aprovação da prorrogação do imposto. A mídia faz o seu comum papel parcial: critica a tentativa de prorrogação.
Eu pergunto pra você que lê este Blog: no que o pagamento da CPMF te prejudicou no último ano? Talvez você tenha pago, no período de 1 ano, 10 ou 12 reais. Se você ganha bem e gasta muito, talvez você tenha pago 100 ou 200 reais... mas se você ganha bem e gasta muito, 100 reais não significam tanto.
Estou escrevendo sobre isso porque a mim, honestamente, a cobrança da CPMF não atrabalha em nada. Eu acho até que todos os impostos poderiam ser cobrados dessa maneira, com desconto direto na nossa conta bancária.
E fico imaginando o porquê de ter tanta gente contra... não posso deixar de imaginar que para um ou outro corrupto que exista no país (sic!) o imposto pode ser desvantajoso. Afinal, ele não é sonegável; além do quê ele permite fácil rastreamento de valores transferidos entre contas bancárias (o que não é muito bom para os pretendentes a suborno...).
Talvez isso ajude a entender porque tantos políticos do PFL e do PSDB são contrários à renovação do imposto.
Da minha parte, preferiria uma campanha contra o imposto de renda, ou contra o ICMS que a gente paga ao comprar elementos componentes da cesta básica... (esse tipo de imposto, o ICMS, todo mundo paga igual, seja o cidadão recebedor de um salário mínimo ou de alguns milhões mensais).
De verdade, não vejo muita vantagem em se acabar com a CPMF. Você vê?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

O falo como medida da democracia

Estamos vivendo uma época de especulações sobre o futuro da democracia (e mesmo sobre seu presente). A Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, expressa bem o furor midiático sobre o tema: em sua capa há uma chamada sobre Hugo Chavez e o plebiscito venezuelano (onde se rejeitou a possibilidade de permanentes reeleições do presidente), e outra sobre semelhante plebiscito que será convocado em breve por Evo Morales. Acusa-se que a falta de alternância no poder seria sinal de anti-democracia.
Críticas semelhantes são feitas aos governos da Argentina e do Equador. Na Argentina, em particular, acusa-se a possibilidade de manter o governo "em família", visto que a ex-primeira dama agora é presidente, e que seu marido poderá voltar a candidatar-se ao final do atual mandato...
O Brasil não escapou às críticas - ainda que ninguém tenha falado seriamente no assunto, a imprensa (e representantes políticos) esqueceram abertamente daquele princípio de "neutralidade jornalística" ao se posicionarem contra a possibilidade de um terceiro mandato de Lula. E olha que o Lula não cogitou essa possibilidade, nem mesmo uma vez... Mas foi previamente condenado pela idéia de sabe-se-lá-quem.
Vendo isso tudo, pensei em meu canto: a Russia, após o final do regime Soviético, teve apenas 2 presidentes. O Boris, que morreu de tanto tomar vodka, e o atual Putin. O muro caiu em 1989, o atual presidente lá está há bem mais de uma década... e ninguém fala nada.
Ditatorial, talvez pensem alguns desavisados, era o regime socialista soviético. Atualmente se vive na Russia uma democracia...
Nâo posso entender os "dois pesos e duas medidas" a não ser pela lei do mais forte: se Chaves fosse alinhado aos EUA, e se tivesse armamento nuclear, ninguém o criticaria por tentar uma nova reeleição. Mais uma expressão do mundo do poder, machista: ninguém fala de quem tem o maior falo...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O inocente (de novo o mesmo)

Voltando aos velhos assuntos: depois de uma série de postagens que visavam divulgar a Filosofia, volto a refletir sobre coisas cotidianas (não que os textos anteriores não tivessem também um pouco disso).
E a questão que surge é: temos agora como saber quem é o mais inocente dos brasileiros. Sim, e (por incrível que possa parecer) ele é senador da República!
Ora, o Senado Federal é uma instituição consolidada. A superior dentre as casas legislativas do país. Compõem o Senado, 3 (apenas 3!) representantes de cada estado da Federação e do Distrito Federal. Veja: dentre os tantos eleitos no âmbito geográfico de um estado (vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, governadores e senadores) o posto de Senador é o segundo mais concorrido - o estado tem apenas 1 governador, e apenas 3 senadores. Gente seleta...
E que cidadão brasileiro já teve a honra de ser considerado inocente por uma plenária composta de gente tão gabaritada? Renan, o Calheiros. E não só uma, mas duas vezes inocente.
Penso até em iniciar uma campanha: Renan, de volta à presidência do Senado. Claro! Qual outro senador já foi testado por 2 vezes e em ambas oportunidades declarado inocente? Nenhum! Se é verdade que ele é duplamente inocente, por que não tê-lo como terceiro homem na hierarquia da nação?
Viva Renan, imagem e semelhança do Senado Federal

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Sobre a educação a distância

Como eu escrevi há alguns dias, um dos grandes problemas do ensino a distância é a má qualidade das instituições de ensino, que vêm nesta modalidade "não-presencial" uma forma eficiente de aumentar seus lucros mediante a precarização da qualidade da educação. Em outras palavras, o problema não está no EaD, mas sim nas más instituições (que já são más no ensino presencial), que potencializam via EaD seu mau-caratismo.
Minha experiência como professor em cursos a distância, todavia, não passa por esse tipo de instituição. Tenho tido uma boa experiência no EaD, sobretudo porque essa modalidade guarda um diferencial significativo em relação ao ensino presencial: o aluno de EaD tem que produzir, tem que ser ativo no processo de aprendizagem. Não lhe basta estar presente nas aulas (como ocorrem em muitos casos no ensino presencial), apenas ouvindo e muitas vezes anulando suas opiniões e pouco participando. No EaD, o aluno tem obrigatoriamente que produzir textos, expressando assim suas próprias idéias, que entram em debate com as idéias dos professores e tutores... trata-se de um processo mais participativo de construção do conhecimento.
Transcrevo abaixo um trecho de um pequeno texto que escrevi, sobre essa questão. O termo "obra" é utilizado tal qual proposto pela filosofia hermenêutica de Paul Ricoeur. Quem quiser o texto integral pode me solicitar por e-mail:

"Peguemos um caso em particular, uma determinada atividade proposta por um professor específico a uma das suas turmas de ensino a distância. Ao elaborar sua atividade, o docente redige uma obra, um texto escrito – sua principal forma de comunicação com o corpo discente. Esta obra não pode ser apenas a indicação fria de um exercício a ser realizado: ela precisa conter todo o contexto necessário para que o discente, sem muitas explicações adicionais, seja capaz de compreender e realizar a tarefa. Ao elaborar sua proposta de atividade o docente precisa dar a ela, a esta obra, todas as condições de ser interpretada, seja qual for o local ou o momento em que o estudante se proponha a fazê-lo.
[...]Como única forma de resposta ao solicitado pelo docente, caberá ao estudante a criação de uma nova obra, originalmente inspirada naquela proposta pelo professor, mas com um avançado grau de autonomia, especialmente porque: (1) trata-se de uma nova obra; a relação com a anterior é apenas de motivação originária; (2) a obra do docente, que motivou esta nova, já possuía um altíssimo grau de autonomia em relação à intenção original do seu autor, o professor, visto que havia sido publicada e recontextualizada. Percebe-se, assim, que o discente é duplamente autor, seja como autor da interpretação do texto de seu professor, seja como autor de seu próprio texto, escrito em resposta àquele primeiro. Fica aqui entendido que o ciclo é contínuo, ou seja, que a obra do discente gerará novo texto do professor, que sofrerá outra reação do estudante e assim ao longo de todo o processo de aprendizagem.
O fato da interlocução se fazer por intermédio de obras, e não pelo diálogo pessoal e direto característico da educação presencial é fundamental no processo de autonomia discente. No diálogo presencial, o face a face é justamente o elemento que permite que o autor de determinada afirmação iniba seu interlocutor caso este último não interprete a afirmação ao contento do primeiro. E esta proximidade, na relação educacional presencial, comumente reafirma a força hierárquica culturalmente presente na interação entre professores e alunos. A ausência do face a face é o elemento que garante ao discente a possibilidade de autonomia, sem que seja imediatamente corrigido caso sua interpretação esteja incorreta – ou seja, não esteja ao contento do docente."

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Há vagas

Ao contrário do que se pode pensar, um dos bons motivos para se estudar filosofia hoje é o mercado de trabalho. Sim, há vagas - e de sobra - para quem resolver entrar nesse campo. E sobre isso faço duas considerações em especial:
(1) recentemente o Conselho Nacional de Educação (órgão representativo do Ministério da Educação) instituiu oficialmente a obrigatoriedade das disciplinas Filosofia e Sociologia em todas as escolas de ensino médio em território nacional (Resolução CNE/CEB 4/2006, Art. 2º, parágrafo 3º. Clique aqui para acessar). Mesmo antes dessa resolução, muitos estados já vinham adotando esta prática - em alguns casos, como o do Estado de São Paulo, havia sido inserida a Filosofia, mas não a Sociologia. O fato é que desde 2006 ambas tornam-se disciplinas obrigatórias. Por outro lado, o número de cursos de licenciatura em Filosofia é insuficiente para atender essa repentina demanda - é preciso formar professores em número suficiente para tanto, e isso levará algum tempo!
Para se cumprir a determinação legal, professores com formação em outras áreas do conhecimento estão assumindo grande parte das aulas de Filosofia, mas evidentemente sem o necessário preparo para tal. Aqui, então, se justifica o estudo de filosofia de duas formas: haverá boa oportunidade de emprego a partir do 1º ano de estudos no curso; ao formar-se, o profissional atuará em sua própria área, para a qual está devidamente preparado, proporcionando uma educação de melhor qualidade.
(2)O outro aspecto é a questão salarial. Se, por um lado, é verdade que o estudante terá oportunidade de entrar no mercado de trabalho logo no início do seu curso, por outro é preciso considerar os baixos salários pagos para os profissionais da educação básica (tomo por referência o estado de São Paulo), sobretudo na rede pública. Sobre isso, há que se considerar: (a) a possibilidade futura de prosseguimento dos estudos, oportunizando atuar em outros níveis da educação ou em outras áreas do mercado; e (b) mesmo na educação básica, costumo contrapor os baixos salários às excelentes oportunidades de trabalho; em outras palavras: o salário pode não ser tão bom (e nem tão ruim assim...), mas provavelmente não faltará emprego...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

O abuso é sempre regra

Em uma de suas instigantes poesias, A exceção e a regra Bertolt Brecht pede, quase implora para que tomemos como estranho o habitual. Essa atitude, o espartar-se diante de ou o admirar a alguma coisa é o princípio primeiro da filosofia, já apontavam os Antigos.

No nosso mundo, ninguém mais faz isso.

Toma-se por habitual as barbaridades mais absurdas e também as formas de opressão mais sutis. Aceita-se a elas, sem questionar, sem debater, sem se rebelar. Parece que não são motivos para rebeldia.

Algumas semanas atrás, escrevi no Blog que eu estava ausente em função do excesso de trabalho a que eu estava submetido. Esse é um dos absurdos sutis contra os quais não nos rebelamos. Outro absurdo, e acredito ser muito mais grave, é lermos no jornal com alguma indiferença que uma menina de 15 anos foi presa por furto (primeira ilegalidade - não se prente uma adolescente por motivos que não sejam drásticos), em uma cela de adultos (segunda ilegalidade) homens (terceira ilegalidade, um absurdo para além do imaginável). Ao longo de 26 dias, a menina foi violentada por 18 dos seus 20 "companheiros" de cela. E eu não vi o assunto ser tratado em espaços públicos, nas universidades onde freqüento, nos espaços privilegiados da mídia... estamos percebendo-o como algo cotidiano.

Por isso, o mundo precisa, mais do que nunca, de Filosofia...

Para acessar mais informações sobre este caso, clique aqui.

A poesia de Brecht:
A exceção e a regra

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Contra o emburrecimento

Pensando sobre essa questão - por que se estudar filosofia hoje?

Um dos grandes filósofos do Século XX, Heidegger, em certa fase de sua vida acreditava que a humanidade chegou na maturidade de seu desenvolvimento; alcançamos um nível de desenvolvimento intelectual, de produção de conhecimento, que não há mais novidade a se criar, apenas explorar isso que já existe. Assim, a filosofia estaria concluída, e os estudos restantes seriam meros desdobramentos de tudo o que já fora dado.
Em oposição a essa idéia, penso numa outra: imagine que uma pessoa qualquer, deste mundo civilizado do Século XXI, fosse transportada para um passado pré-histórico. Imaginemos qualquer um de nós, com todos os nossos conhecimentos, num mundo anterior à própria civilização. Naquele contexto, nosso conhecimento não valeria nada! Isso porque pouco conhecemos do mundo - não sabemos como fazer as coisas e nem porque elas funcionam. Sabemos apenas utilizá-las: nosso conhecimento é técnico.
Sabemos dirigir, mas não montar um motor. Acendemos a luz para ler à noite, mas não sabemos criar uma fonte primária de geração de energia. Sabemos muito, mas nosso saber pressupõe os recursos que existem nesse mundo. Sem esses recursos - muletas - não nos resta muito conhecimento...
Minha questão é essa: no mundo contemporâneo, a tecnologia nos emburrece. Nosso saber se limita a escolher o botão certo para apertar, e desconsidera todo o processo (de conhecimento) que gera a construção do aparato tecnológico.
Vejo, assim, um bom motivo para estudar filosofia... o mundo está emburrecendo (e nós com ele).

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Filosofia da educação... virtual

Como muitos sabem, estou respondendo pela coordenação do novo curso de Filosofia, na modalidade a distância, da Universidade Metodista. O curso deverá iniciar sua primeira turma em fevereiro do próximo ano. Esta nova função tem me obrigado a refletir sobre os processos de educação a dsitância.
A primeira reação da maioria das pessoas é de descrença nessa modalidade de ensino. É muito comum eu ver pessoas "torcendo" o nariz quando falo em "estudar a distância", e compreendo sua atitude: muitas das instituições de ensino estão utilizando o EaD como forma de simplesmente ampliar seus lucros, permitindo a precarização dos processos educativos. Concordo que é mais fácil uma instituição banalizar o ensino, priorizando o lucro, nesta modalidade de educação.
Há algum tempo, ouvi do vice-reitor da Metodista que um bom professor presencial é um ótimo professor no EaD. E um professor medíocre no ensino presencial, é um péssimo profissional no EaD. Concordo com a afirmação, e a estendo para as Instituições de ensino: uma boa Universidade, tem potencial para ser igualmente boa ou, quem sabe, ainda melhor no EaD. Estendo-a, também, para os alunos: um bom aluno, disciplinado aos estudos e certo de sua opção, encontrará no EaD condições de se manifestar de forma muito mais intensa do que em uma sala de aula presencial, muitas vezes lotada de estudantes - o que impede processos dialógicos efetivos e freqüentes.

Dedicarei as próximas postagens no Blog a estas duas questões:
- por que estudar em cursos a distância (e porque não fazê-lo)?
- por que estudar filosofia nos dias de hoje?

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Evento: Filosofia e educação

ATENÇÃO: ESTE EVENTO FOI CANCELADO
Ocorrerá em 8/12 o IV Encontro de Educadores de ABC, evento anual promovido pelo Núcleo de Filosofia com Crianças (NEFIC) e pela Faculdade Tijucussu. A exemplo das edições anteriores, o evento terá uma mesa de debate e também oficinas práticas/reflexivas (inspiradas no método das comunidades de investigação, de Matthew Lipman). As inscrições devem ser feitas no site da Faculdade (clique aqui) ou pelo telefone (11)4224-9490.
Clique na imagem para acessar o cartaz do evento e outras informações.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Notícias desta América

Recentemente foi lançado o site oficial do filósofo Enrique Dussel - certamente o maior expoente atual da filosofia latino-americana. No site, além de informações diversas sobre o autor, há link para três bibliotecas virtuais que disponibilizam on line quase toda a sua obra.

O endereço do site é www.enriquedussel.org.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Em breve

Olá pessoal. Nos últimos dias tenho sido cobrado por não enviar novas postagens ao Blog. Retomarei essa atividade em breve.
Obrigado (pela cobrança e) pela compreensão!

domingo, 4 de novembro de 2007

Marighella

É fácil ser revolucionário hoje. No geral, os partidos comunistas no Brasil - e em nenhum canto do mundo há tantos! Legais e ilegais, PCB, PCdoB, PCO, PSTU, PSOL, PCBr, PCML e por ai vai... - se acomodam sob a idéia de que "a revolução não está às portas" (não está prestes a acontecer), e então é melhor esperar. Ou então com a idéia de que "estamos em plena revolução permantente", de modo que qualquer manifestação insignificante ganha força de ato revolucionário...
Em 4 de novembro de 1969 tombava um dos grandes revolucionários brasileiros.
Com a envolvente paixão que só os (bons) homens da religião são capazes de empreender, foi assim que Frei Beto descreveu o contexto da morte de Marighella:

"Foi na realidade uma noite do povo", publicou O Globo em sua edição do dia seguinte. Espetáculo de gala no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Pelé teria festejado seu grande dia se o resultado fosse ao contrário. Mas foi o Cotíntians que marcou quatro gols no Snatos. Magnífica atuação do time od Parque São Jorge. A equipe praiana fez apenas um tento. E não foi de Pelé, foi de Edu.
Os portões foram franqueados ao público. Arquibancadas repletas, torcidas excitadas, tambores, cornetas e apitos alegrando a noite de terça-feira, 4 de novembro de 1969. Banceiras coloridas flutuavam sobre a multidão que aplaudia o desempenho de seus times.
Bem que Pelé tentou. Mas não seria ainda dessa vez. Quando ele dominava a bola, o coração da torcida batia acelerado. Poderia ocorrer a qualquer momento. rivelino, porém, robou-lhe a noite e balançou a rede adversária duas vezes. Pelé permaneceu na soma de novecentos e noventa e seis gols ao longo de sua brilhante carreira. Não seria ainda dessa vez que ele marcaria o milésimo gol.
A contagem foi aberta aos vinte e cinco minutos. Rivelino centrou forte para a pequena área, Ivair entrou livre e tocou a bola para dentro da meta do goleiro santista. A torcida corintiana explodiu: a euforia reboava, as cornetas soavam estridentes, as baterias assemelhavam-se a disparos acelerados de canhões em salvas de tiros. Aos trinta e dois minutos, Benê tentou cortar Joel e Ramos Delgado, sendo derrubado pelo primeiro. de pé esquerdo, rivelino bateu a falta, chutando entre a barreira do Santos para ver a pelota enroscar-se no fundo da cidadela de Agnaldo.
No intervalo do jogo, a torcida movimentava-se, agitada. O cheiro de suor misturava-se ao hálito úmido do clima chuvoso da noite quente. Dedos nervosos cruzavam, entre mão estendidas, dinheiro, pipocas, refrigerantes, sanduíches, amendoim torrado. Possantes holofotes cobriam com um véu branco o gramado verde do Pacaembu. Nos vestiários, os times recobravam fôlego. de súbito, um ruído metálico de microfonia ressoou pelo estádio. um ajustar de ferros puxados por corrente elétrica. Cessaram as batucadas, silenciaram as cornetas, murcharam as bandeiras em torno de seus mastros. O gramado vazio aprofundou o silêncio curioso da multidão. O locutor pediu atenção e deu a notícias, inusitada para um campo de futebol: "Foi morto pela polícia o líder terrorista Carlos Marighella".


Extraído do livro Batismo de Sangue, de Frei Betto (São Paulo, Círculo do Livro, 1982). Foi mantida a grafia da edição.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Homenagem a Vattimo

A Parte Rei Revista de Filosofia (Madrid, Espanha) publicou um número especial em homenagem a Gianni Váttimo. Para quem não conhece, Vattimo é um dos autores contemporâneos problematizadores a tensão modernidade/pós-modernidade.
Além de contribuição do próprio Vattimo, a revista traz um interessante texto de Enrique Dussel, discutindo a "pós-modernidade e a trans-modernidade" (não, não é só uma mudança terminológica. Veja a "Introdução" do livro "Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão", de Dussel, para entender melhor sobre isso) e, evidentemente, outros textos diversos.

Este número da Revista está disponível on line, clique aqui para acessá-lo.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O leite...

Eu costumo ler as "colunas" do jornal Diário do Grande ABC, e geralmente me divirto com elas. Mas hoje encontrei lá uma notinha especialmente ácida (ou sou eu quem está mais ácido hoje?), escrita pelo Carlos Brickmann:

O ruim e o pior
O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, garante que o problema do leite não é a falta de fiscalização. Nesse caso o problema é muito mais grave: vende-se leite com soda cáustica e água oxigenada com fiscalização e tudo.


Menos interessante, apenas para ilustrar, vi ontem à noite esta charge:



É de rir ou de chorar??

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Mais uma do Barão

Jà tive a oportunidade de transcrever aqui no Blog uma sábia reflexão publicada no Almanaque para 1949 do Barão de Itararé. Acabei de encontrar outra, muitíssimo atual - que poderia ser entendida perfeitamente no contexto de aquecimento global e e crise ambiental planetária. Ai vai:

Quem terá a razão?

Pitagoras calculou que a distancia da Terra á Lua era de 126 mil estadios. O estadio era uma medida olimpica que, reduzida a centavos, corresponde a 185 metros da nossa moeda.
Os astronomos modernos, entretanto, afirmam que a distancia média da Terra á Lua é de 450 mil quilometros.
Quem estaria com a razão? Pitágoras ou os nossos contemporaneos?
E não se poderia dar o caso em que todos estivessem certos? Quem sabe se, no tempo de Pitágoras, a Lua não estava distante de nós 23.290 quilómetros apenas? Quem sabe se a Lua, aborrecida com a nossa indesejável vizinhança, não vai se afastando cada vez mais da Terra?


(A grafia foi mantida, tal qual publicada em 1949)

domingo, 28 de outubro de 2007

Matematização do mundo

Na postagem anterior, falei sobre a tendência racional-positivista do método científico consagrado em nossos tempos. (Quando digo consagrado, refiro-me àquilo que Enrique Dussel chama por fetichizado, quando algo criado pelo ser humano passa a ser divinizado de tal modo que o próprio ser humano [criador] submete-se à sua criatura).
Encontrei nesta charge abaixo uma boa e triste expressão dessa incompatibilidade "método X ser humano".



Bom domingo a todos/as...

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Universidade e Conhecimento

Uma vez mais os muitos afazeres me afastam da regularidade nas publicações no Blog... mas vamos ao que interessa.

Terça-feira eu participei da mesa "Subjetividade e Globalização", na XXX Semana de Psicologia da UMESP - ao lado dos profs. Manoel e Edu Bastos. Em uma das partes da minha apresentação, caminhei por uma linha de pensamento segundo a qual a ciência (e sua metodologia) atual é essencialmente fundada no pensamento moderno europeu, o qual poderíamos simbolicamente definir como iniciado em Descartes (com seu racionalismo e egocentrismo exagerados) e chega ao seu ápice com Comte e a ambição positivista-lógica. Como desfecho dessa argumentação, apresentei como hipótese a possibilidade da ciência contemporânea ser essencialmente fundada em uma concepção de ser humano (cartesiana) e em uma concepção de ciência (comteana) inadequadas à sociedade contemporânea, particularmente na América Latina (talvez aqui a definição de "animal racional por excelência" nunca tenha sido muito feliz...). A conseqüência dessa hipótese seria que o simples fato de seguir as regras metodológicas da ciência atual limitaria nossa possibilidade de procução do conhecimento às possibilidades da ciência moderna-européia. E estariam ao menos parcialmente sujeitas a estas condições, inclusive, as ciências ou áreas que se pretendem não-positivistas (como a psicanálise), dada sua fundação num contexto essencialmente racionalista-positivista.
Referindo-se à parte da minha exposição acima resumida, o Robson, um amigo e aluno do Curso de Psicologia, fez um comentário que é o que eu gostaria de expor aqui no Blog (toda essa introdução foi apenas para contextualizar, ok?). Ele disse que se sentia até "aliviado" de ouvir esta crítica, visto que no geral a Univesidade apresenta seu modelo metodológico adotado como única possibilidade. Evidentemente que ele não se sente "à vontade" com essa pretensa "única possibilidade".
Estou, desde então, pensando quandos estudantes não sentem essa mesma angústia. Quantos sonhos dos calouros universitários são transformados pela metodologia da ciência na universidade. Quantas deformações não são assumidas como parte do processo formativo do profissional. E também, quanto conhecimento não deixa de ser produzido em função da mediocridade imposta pela metodologia padrão...
Fico pensando: e se Freud tivesse se rendido às consagradas metodologias da medicina de seu tempo...?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

O salário do professor e a qualidade do ensino

Um novo debate começou ontem a ser travado nas páginas do jornal Folha de São Paulo. A matéria principal da capa do jornal foi "Professor do Acre ganha mais que o de São Paulo" (matéria na íntegradisponível para assinates do jornal ou do UOL).
No rodapé da capa da edição de hoje, consta a resposta da Secretária Estadual da Educação de SP, Maria Helena Guimarães Castro, sob o título "Salário não melhora o ensino, diz secretária" (matéria na íntegradisponível para assinates do jornal ou do UOL).
Tive a oportunidade de conhecer os 2 sistemas estaduais de ensino - do Acre e de São Paulo - e não tenho dúvidas sobre a superioridade do acreano. Os salários são apenas uma parte desta superioridade. A argumentação da secretária de SP é uma meia-verdade: concordo que o salário por si só não melhora qualidade, mas no caso acreano o salário relativamente alto deve ser tomado como indício de uma política de valorização do ensino público, e neste sentido nossos colegas do norte do país estão décadas à nossa frente.
O Estado do Acre enfrenta um sem-número de dificuldades que não temos, em São Paulo, que superar. Estive lá em 2004, ministrando um curso de capacitação para professores de Filosofia e de Sociologia, que atuam na rede pública de ensino. Lá estas disciplinas já eram obrigatórias - aqui, o Conselho Estadual de Educação insiste numa natimorta tentativa de contrariar o Conselho Nacional de Educação, tentando não incluir tais disciplinas no currículo do Ensino Médio. Mas lá, em todo o estado, não havia (e creio que ainda não haja) um único curso de graduação nestas áreas; ou seja, o Estado assumiu a inclusão destas disciplinas mesmo não tendo faculdades para formar os professores nestas áreas. Para responder ao desafio, contratou professores para ministrar cursos intensivos de formação em Filosofia e em Sociologia para professores formados em outras áreas do conhecimento.
Já naquela época eu fui seduzido pelo salário pago na rede pública acreana de ensino, semelhante aos salários praticados em algumas faculdades paulistas.
O fato é que no Acre assumiu-se a educação pública como um princípio de cidadania, e em São Paulo ela não passa de plataforma eleitoral, com propsotas mirabolantes que vão dos CÉUs aos infernos, das duas professoras em sala de aula à intocabilidade do fracassado modelo de aprovação automática vigente.
Penso estarmos diante da exigência de uma "pausa" na natural arrogância paulista, para aprendermos essa lição com nossos colegas do Acre.

Evento: Filosofia para crianças

SEMINÁRIOS ABERTOS
DE FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Dia: 18 de Outubro de 2007 14:00-17:00 h.

Faculdade de Educação / USP
Av. da Universidade, 308 - Cidade Universitária
Sala 149, Bloco B

(Entrada franca, sem prévia inscrição)


Filosofia para crianças:
limites e possibilidades

Debatedores:
René José Trentin
Paula Ramos de Oliveira
Flávio Rovani de Andrade

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Educação e autoritarismo

Uma pequena chamada da capa da Folha de São Paulo de ontem remetia a um dos grandes (e pouco debatidos) problemas da educação pública brasileira. A manchete era Indicação política define 45,5% dos diretores escolares.
Um dos textos que eu gosto de utilizar quando leciono Gestão Educacional é um artigo do Prof. Dr. Erasto Mendonça, chamado A gestão democrática nos sistemas de ensino brasileiros: a intenção e o gesto (clique aqui para acessar o texto), apresentado em uma das reuniões anuais da ANPEd. De forma simples, o autor constata que há basicamente 4 formas de se tornar diretor em uma escola pública brasileira: a indicação (geralmente política), o concurso, a eleição, e um modelo misto que tem uma prova seletiva seguida de uma eleição (neste caso, só podem concorrer à eleição os aprovados na seleção). Ele constata ainda que a livre indicação, em que o representante do poder executivo nomeia o diretor - e o demite quando quiser - é modelo mais autoritário, ao passo que a seleção seguida de eleição é o modelo mais democrático.
Mas a indicação, autoritária por essência, é o modelo adotado em quase metade das escolas dos sistemas públicos de ensino no Brasil. Resquício de ditadura...

E apenas para provocar: a pesquisa de Mendonça envolveu todos os sistemas estaduais de ensino, além dos sistemas municipais das capitais. Os dois únicos casos encontrados em que o concurso público é a forma de provimento ao cargo de diretor são os de São Paulo - Estado e Prefeitura. Este modelo, a que nós, paulistas, estamos tão acostumados, é mais que ultrapassado na maior parte do país...

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Palestras - Gleiser e Morin

O projeto Universo do Conhecimento, iniciativa da Universidade São Marcos, está promovendo o Fórum "A humanidade no Século XXI", realizado por meio de palestras gratuitas e abertas ao público. As próximas palestras são de Marcelo Gleiser (24/10) e Edgar Morin (10/12).
As inscrições podem ser feitas no site do projeto - clique aqui.

Che: 40 anos

Reproduzo abaixo nota do presidente cubano, Fidel Castro, sobre os 40 anos do assassinato de Che Guevara, na Bolívia. Nota originalmente publicado no jornal cubano Granma.


Reflexiones del PRESIDENTE FIDEL CASTRO

El Che

Hago un alto en el combate diario para inclinar mi frente, con respeto y gratitud, ante el combatiente excepcional que cayó un 8 de octubre hace 40 años. Por el ejemplo que nos legó con su Columna Invasora, que atravesó los terrenos pantanosos al sur de las antiguas provincias de Oriente y Camagüey perseguido por fuerzas enemigas, libertador de la ciudad de Santa Clara, creador del trabajo voluntario, cumplidor de honrosas misiones políticas en el exterior, mensajero del internacionalismo militante en el este del Congo y en Bolivia, sembrador de conciencias en nuestra América y en el mundo.
Le doy las gracias por lo que trató de hacer y no pudo en su país de nacimiento, porque fue como una flor arrancada prematuramente de su tallo.
Nos dejó su estilo inconfundible de escribir, con elegancia, brevedad y veracidad, cada detalle de lo que pasaba por su mente. Era un predestinado, pero él no lo sabía. Combate con nosotros y por nosotros.
Ayer se cumplió el 31 aniversario de la matanza de los pasajeros y tripulantes del avión cubano hecho estallar en pleno vuelo, y nos adentramos en el décimo aniversario del cruel e injusto encarcelamiento de los cinco héroes antiterroristas cubanos. Ante todos ellos inclinamos igualmente nuestras frentes.
Con mucha emoción vi y escuché por la televisión el acto conmemorativo.

Fidel Castro Ruz
7 de octubre de 2007
3:17 p.m.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Graduação em Filosofia - novo curso

A Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) oferecerá, a partir do início de 2008, o Curso de Filosofia na modalidade de Ensino a Distância. Essa modalidade de ensino é bastante controversa - há aqueles que exaltam, e aqueles que satanizam. De minha parte, posso afirmar que o modelo de EaD que a UMESP vem adotando é bastante sério, com transmissão ao vivo de aulas (o que potencializa a interação ente professores e alunos) bem como com uma equipe de tutores e monitores de pólo - enfim, uma equipe profissional que se esforça por garantir qualidade no processo de aprendizagem, possibilitando que ele se realize a distância.
Algumas informações preliminares do curso já estão disponíveis, clicando aqui.
A lista de pólos regionais (onde os alunos assistem a parte das aulas) está disponível aqui.
E as inscrições para o processo seletivo já estão abertas - acesso aqui.
O ensino a distância na UMESP é devidamente autorizado e credenciado pelo Ministério da Educação. O Curso de Filosofia/EaD conferirá aos formados diploma de Licenciatura Plena em Filosofia.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Piso salarial do magistério

Em tempos de precarização do ensino, de convormismo geral com a falta de condições da escola - em geral da básica pública e da superior privada -, nessa era de desesperança educacional, uma notícia que pode tornar menos trágica a situação de parte dos profissionais da educação: vem sendo bem recebido na Câmara dos Deputados o projeto de lei que institui o piso salarial do magistério. O valor gira em torno dos R$1.000,00 - o que bem acima daquilo que se paga para professores da educação básica, em boa pate do Brasil (e também superior ao que se paga a boa parte dos professores da educação infantil, mesmo na região metropolitana de SP).
A questão é tão séria que mesmo sendo assim baixo, um piso salarial se torna eficiente: tenho visto tantas distorções entre salário e função desempenhada, no ensino superior, que é possível esse piso melhorar (ou des-piorar?) as condições de alguns professores universitários - por incrível que possa parecer.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Nem se fala


Às vezes, a imprensa esquece de tratar de determinados assuntos. Ou será que, conforme o partido praticante, um mensalão deixa de ser um mensalão?

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Aquém da mediocridade educacional

Reproduzo abaixo matéria publicada hoje na Folha de São Paulo. Foi a manchete principal da capa do jornal. Nos traz um assunto absolutamente dominado por qualquer educador do "chão-da-escola": toda a avaliação de resultados das políticas públicas de educação é feita exclusivamente sob perspectiva quantitativa. A educação para todos tem se traduzido em precarização dos processos educacionais, redução da qualidade. O antigo analfabetismo tem, hoje, dois novos nomes: alfabetização, nos índices estatísticos governamentais; analfabetismo-funcional, na vida prática das pessoas.
Se a mediocridade é a indicação de algo que não superou uma mera média, podemos entender que estamos longe de sermos medíocres em educação.
Alunos do 3º ano têm nota de 8ª série
Em SP, no final do 2º grau, 43% dos estudantes mostram conhecimentos de leitura e escrita esperados da 8ª série

Na escola pública, a situação é ainda pior, segundo dados inéditos de um exame federal de avaliação de aprendizagem

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL

Quase a metade dos estudantes do Estado de São Paulo termina o ensino médio (antigo colegial) com conhecimentos em escrita e leitura esperados para um aluno de oitava série.
Dados inéditos extraídos do último Saeb -exame federal de avaliação de aprendizagem-, realizado em 2005, revelam que 43,1% dos alunos do terceiro ano tiveram notas inferiores a 250, patamar fixado como o mínimo para a oitava série pela secretária de Estado da Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro.
Ou seja, eles não conseguem, por exemplo, compreender o efeito de humor provocado por ambigüidade de palavras ou reconhecer diferentes opiniões em um mesmo texto.
Outros 15,2% dos alunos tiveram desempenho ainda pior, similar ao desejado para crianças da quarta série do ensino fundamental (antigo primário).
O quadro seria ainda mais dramático se os alunos da rede privada fossem retirados da conta, uma vez que a média dos estudantes das escolas públicas estaduais é 21,2% inferior à dos alunos das particulares.
Talita Lima de Araújo, 18, que estudou em uma escola estadual na Pompéia (zona oeste de SP), reclama da precariedade do ensino público. "Quando você termina o ensino médio, só percebe um vazio. Não temos chance no vestibular."
Os dados no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) comprovam a impressão de Talita. A média da oitava série da rede privada (285,8) é maior que a do terceiro ano do ensino médio da rede estadual (253,6).

Causas
Dagmar Zibas, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e uma das maiores especialistas em ensino médio no país, diz que o péssimo desempenho é conseqüência das condições de trabalho dos educadores.
"Não é possível que um professor, que já tem formação deficiente, dê aulas em duas ou três escolas. Ele não sabe nem o nome dos alunos. Chega, faz a chamada, dá algumas instruções e já tem de correr para a próxima aula", afirma.
Segundo a Secretaria Estadual da Educação, 70% dos professores têm emprego em outra rede -ou seja, no mínimo dobram a jornada.
O educador e filósofo Mario Sergio Cortella, secretário municipal de Educação de São Paulo entre 1991 e 1992 na gestão Luiza Erundina (então no PT), diz que o ensino médio cresce como nunca na história do país. "Nos últimos dez anos, quase triplicamos o número de alunos, muitos com atraso escolar. Se aumentamos imensamente o universo de alunos, houve inversamente uma degradação das condições de trabalho. Faltam professores".
Cortella diz que essa "colisão" (mais alunos e menos professores) se agravou pela promoção automática nas escolas. "Estamos colhendo o que foi organizado há dez, 15 anos."
O educador diz não ser contra a progressão continuada, mas afirma que ela foi mal implementada. Segundo ele, é necessário haver haver um sistema de recuperação eficiente, para que o aluno com dificuldade avance com as condições adequadas.
Já o professor da Faculdade de Educação da USP Romualdo Portela reclama da descontinuidade administrativa. "Apesar de o mesmo partido comandar o Estado, cada secretário teve uma agenda, o que causou uma descontinuidade", diz.
Para Maria Helena, que assumiu a secretaria do governo José Serra (PSDB) há cerca de dois meses, presidiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais e ajudou a implantar o Saeb, o problema está na alfabetização deficiente, ocasionada pela má formação dos professores e por materiais didáticos de má qualidade.
Ela afirma que um pacote lançado pelo governo irá melhorar a situação.
Secretário de Educação à época da prova, durante o governo Geraldo Alckmin (PSDB), Gabriel Chalita foi procurado pela Folha, mas preferiu não se manifestar.
A prova do Saeb é aplicada em todo o país, de forma amostral, a cada dois anos, nas quartas e oitavas séries do ensino fundamental e no terceiro ano do ensino médio. O exame deste ano será realizado no mês que vem.

A mídia em debate

Toda e qualquer tentativa de alteração do status quo gera debates que podem ou não caminhar para uma transformação social - em maior ou menor escala. O fato é que há muito tempo não víamos tantas tentativas de mudanças do status quo, ainda que em setores pontuais (mas representativos) da sociedade dominante.
Sem dúvida um dos grandes agentes práxicos deste processo é o presidente venezuelano, Hugo Chavez. Chamam-no de polemicista. Entendo que o adjetivo é derivado de sua ação, incômoda a setores que se consideravam consolidados, da burguesia nacional venezuelana e, principalmente, da burguesia internacional.
A não-renovação do direito de transmissão da RCTV (um tipo de Rede Globo de lá) é, certamente, o mais atual exemplo desse incômodo chavista. Com efeito: o direito de transmissão de sinais de rádio e TV é de propriedade do Governo (assim como o é no Brasil), que concede esse direito para determinadas empresas privadas, por um certo tempo. Evidentemente que estas empresas precisam prestar serviços de relevância pública, visto que estão lucrando MUITO sobre uma propriedade (o direito de transmissão) pública.
O governo de Chavez considerou que a RCTV não prestava relevante serviço público, e não renovou a autorização.
O debate foi aberto. Empresas como a brasileira Rede Globo assustam-se com a possibilidade dessa moda pegar. Qual é o grande serviço que vem sendo prestado pela Globo, que justifica as fortunas que lá são geradas sobre um direito público de transmissão?

sábado, 22 de setembro de 2007

Homenagem a Pablo Neruda

Amanhã (23) completará 34 anos da morte de Pablo Neruda. O poeta, comunista, morreu dias após o golpe que derrubou o governo socialista de Allende e instalou a ditadura militar no país.
Em homenagem a Neruda, transcrevo abaixo sua poesia:

QUEM MORRE?

Morre lentamente
Quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem não encontra graça em si mesmo

Morre lentamente
Quem destrói seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente
Quem se transforma em escravo do hábito
Repetindo todos os dias os mesmos trajeto,
Quem não muda de marca,
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou
Não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
Quem evita uma paixão e seu redemoinho de emoções,
Justamente as que resgatam o brilho dos
Olhos e os corações aos tropeços.

Morre lentamente
Quem não vira a mesa quando está infeliz
Com o seu trabalho, ou amor,
Quem não arrisca o certo pelo incerto
Para ir atrás de um sonho,
Quem não se permite, pelo menos uma vez na vida,
Fugir dos conselhos sensatos...

Viva hoje !
Arrisque hoje !
Faça hoje !
Não se deixe morrer lentamente !

NÃO SE ESQUEÇA DE SER FELIZ

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Presidente, socorre eu

Às vezes (mais comumente do que se imagina) percebemos que a sociedade está virada de ponta cabeça. Reproduzo abaixo matéria publicada pelo site UOL, sobre o lavrador que foi detido ao entrar no Palácio do Planalto, na esperança de explicar ao Presidente que tem algo errado acontecendo no Brasil.
Quando a esperança é gerada, acredito em minha ingenuidade que o compromisso está assumido. E poucas coisas são mais tristes que se eliminar a esperança - o sonho com um futuro melhor, como forma de conseguir lidar com o presente, tão pior, a que se está obrigado a viver.

Lavrador tenta entrar no Palácio do Planalto para falar com Lula

O lavrador Ângelo de Jesus, de Pindobaçu (BA), invadiu na manhã desta quinta-feira (20), por volta das 9h, o Palácio do Planalto.


Ângelo passou pelo balcão de entrada sem se identificar e foi abordado pelos seguranças. Bastante nervoso, ele reagiu e se agarrou ao aparelho detector de metais. Anunciando que queria falar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele acabou detido por seguranças.

Imobilizado, ele gritava "presidente, socorre eu". Ângelo de Jesus argumentava que está há quatro dias sem comer e que está com hanseníase. Por conta desta doença, disse que está afastado do trabalho e não está conseguindo alimentar os seus quatro filhos.

O lavrador foi levado em uma ambulância do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal para o Hospital de Base de Brasília.

Enquanto o lavrador se manifestava, chegavam ao Palácio do Planalto os conselheiros que vão participar da 23ª reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social).


Em minha ingenuidade, penso que os conselheiros do desenvolvimento econômico e social tinham se alimentado melhor que o lavrador...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Mercadoria

Sensibilizada pela postagem abaixo (sobre a alienação) minha amiga Larissa enviou os quadrinhos que reproduzo abaixo. Clique sobre a imagem para ampliá-la

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Trabalhador alienado

O excesso de trabalho tem me afastado um pouco do blog.
Mas como a filosofia tem, antes de qualquer coisa, que se espantar com as coisas, tenho um prato cheio:
Qual é o objetivo de viver nesse ritmo a que nos submetemos nós, a maioria dos habitantes das megalópoles - tal qual São Paulo? Me vejo envolvido em um sem-número de projetos e atividades, e tenho a sorte (ou mérito [?]) de trabalhar atualmente apenas em projetos nos quais acredito: a coordenação de um Núcleo de Formação Cidadã, na universidade onde trabalho; a colaboração com o desenvolvimento e replanejamento de um Curso de Filosofia; as aulas, para turmas interessantes e de disciplinas que têm sido o foco de minhas pesquisas pessoais; as palestras ou pequenos cursos, ministrados sobretudo para sindicados ou escolas públicas (que tanto respeito)... enfim, não posso reclamar do tipo de trabalho que desempenho.
Mas ainda assim, mesmo para trabalhar em coisas que gosto, mal consigo me dedicar a outros e pequenos projetos pessoais - o relacionamento mais ativo com amigos ou mesmo este blog!
Isso me faz pensar em uma dupla dimensão da alienação do trabalho no mundo capitalista (lá vem Marx): a mais evidente, é aquela do trabalhador que não vê sentido no seu trabalho, o sujeito que trabalha tanto, e nem mesmo sabe direito o que significa aquele trabalho que ele realiza, qual a importância de sua participação na produção de algo maior... a outra, é a minha - alienação de quem faz o que quer, gosta do que faz, mas para fazê-lo na sociedade capitalista precisa dedicar uma tamanha disposição que não sobra espaço para mais nada...
Obrigado por ouvir estas lamentações <:>

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Evento: Filosofia da Educação

Segue abaixo convite para o próximo encontro dos Seminários Abertos de Filosofia da Educação", promovidos pelo Núcleo de Estudos e Pesquisa em Filosofia da Educação / FEUSP.

A ÁREA TEMÁTICA de FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO E
O NUCLEO de ESTUDO e PESQUISA EM FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO NEPEFE
convidam para a sessão dos

SEMINÁRIOS ABERTOS
DE FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Dia: 20 de Setembro de 2007
14:00-17:00 h.

Faculdade de Educação / USP
Av. da Universidade, 308 - Cidade Universitária
Sala 149, Bloco B
(Entrada franca, sem prévia inscrição)

A filosofia da educação: o desafio da formação filosófica do educador
Debatedores:

Marilene Vieira
Maria Cristina Braga Tagliavini
Silvio Guarde


Núcleo de Estudo e Pesquisa em Filosofia da Educação
A/c Antônio J. Severino e M. Dulcinea Loureiro / Feusp/ Bloco A / Sala 225
Avenida da Universidade, 308 / São Paulo-SP 05508/900

sábado, 15 de setembro de 2007

Biblioteca Paulo Freire

Aos interessados na obra de Paulo Freire, vai o link da Biblioteca do autor, que disponibiliza suas obras on line: clique aqui para acessar.

Mas este Blog continua de luto...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Luto

Este Blog está de luto, pela absolvição do presidente do Senado, e pelo apoio que ele recebeu dos partidos que historicamente se apresentavam como "de esquerda".

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ele era inocente!

E o Renan era inocente! A justiça foi feita. Por 40 votos a 35 (e 6 que preferiram se abster - sim, eles têm esse direito, mesmo sendo pagos para decidir, podem decidir abster-se) o Senado Federal determinou que o Renan Calheiros é inocente.
Sim, claro que a justiça foi feita. Afinal, no nosso sistema, justiça é aquilo determinado pelos poderes republicanos estabelecidos. E conforme os poderes estabelecidos, a Carta Magna e as outras cartas, é o Senado Federal que deve julgar se um membro seu é ou não culpado de ato que deporia contra o "decoro parlamentar". Se a justiça assim o manda, a justiça foi feita. E os decisores julgaram a inocência de Renan. Mesmo ele não tendo provado de onde tirou dinheiro para pagar à nua jornalista (aguardem a Playboy...), mesmo ele tendo apresentado documentos que se contradizem, mesmo tendo entregue notas ficais falsas, digo, equivocadas por serem inexistentes frente ao fisco, mesmo, mesmo, mesmo... a justiça determinou que ele era inocente. Enão, justiça foi feita!
Em verdade, devo pensar aqui que o processo que foi julgado era sobre a quebra ou não do "decoro parlamentar". E, sob essa perspectiva, devo concordar com a decisão. Renan não quebrou o decoro instituído, muito pelo contrário: apenas fez aquilo que tantos outros fazem, agiu conforme o paradigma que impera no parlamento brasileiro. E se ele agiu como agem normalmente os parlamentares, não quebrou decoro, mas o reforçou. Viva a corrupção! Viva a robalheira do nosso - meu e seu - dinheiro, impostos, multas, cobranças diversas...
As instituições de direito estão notoriamente falidas no Brasil. O executivo corruptor (quantos ministros já cairam por denúncias de corrupção?), o legislativo corrompido (quantos parlamentares deixaram de cair, apesar das evidências de corrupção?) e o judiciário cego a tudo - as vendas que deveriam simbolizar a igualdade da justiça gravam na nossa sociedade a certeza da impunidade.
Frente a este caos no poder público - e é um caos sobre as Instituições, não interior a elas - não me espantaria ver, muito em breve, levantes armados e o rompimento da atual sociedade de direito. Não espantaria, afinal, de direito não há muito por ai...

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Quem tem pressa...

Em tempos de globo-colonização e informática, dedicamos cada vez menos tempo às coisas. As respostas razoáveis precisam ser quase imediatas - não se admite demoras. Eu, por exemplo, fiquei irritado por levar 6 horas para fazer uma viagem que, normalmente, faria em 3. Quase me esqueci quantos dias levaria para fazer essa mesma viagem há 50, 100 anos.

Mas algumas coisas não podem - ou não devem - ser feitas antes do seu tempo. Os resultados podem ser aparentemente favoráveis, circunstancialmente interessantes, mas desastrosos a longo prazo.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Memórias de 11 de setembro

Em 11 de setembro de 1973 o então presidente chileno Salvador Allende é assassinado, durante a resistência ao golpe militar liderado por Pinochet. Era o início da didatura no Chile.
Como de costume em momentos iniciais de uma ditadura, são duas as versões para o "fim" de Allende. Uma sugere que o presidente, socialista, teria se suicidado quando as tropas militares invadiram a sede do governo (Allende estava lá dentro). A outra versão conta que o presidente pegou em armas dentro do próprio palácio, lutando até a morte. Talvez por romantismo revolucionário, eu vejo mais coerência nesta segunda versão.
O site Mídia Independente traz a transcrição do último discurso de Allende, transmitido ao vivo via rádio, do palácio do governo, na manhã de 11/9/73.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Democracia e o cão(zinho)

Alguns dias atrás escrevi neste Blog sobre O Cão, Diógenes. E hoje me deparei com uma notícia que traz o mundo canino de volta a estas páginas, ainda que, agora, no diminutivo.
Coisa que só na democracia se poderia imaginar: os conteúdos específicos de Artes, a serem ensinados na educação básica (da pré-escola ao ensino médio) poderão ser definidos pelo deputado federal Frank Aguiar, o cãozinho dos teclados. Deputado federal Eleito por São Paulo, pelo PTB, o Caozinho tem atuado especialmente na comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados.
ÁUH!
Reproduzo abaixo notícia sobre o assunto, publicada no site da Câmara dos Deputados.

Câmara analisa diretrizes para ensino de artes na escola
A Câmara analisa a criação de diretrizes para o ensino de Artes na educação básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) dentro da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96). A proposta (PL 741/07), apresentada pelos deputados Elismar Prado (PT-MG) e Frank Aguiar (PTB-SP), define os conteúdos a serem ministrados e distribuídos entre as várias séries.
Atualmente, apenas a obrigação da educação artística consta da lei. Pela proposta, música, teatro, dança, artes plásticas, fotografia, cinema, vídeo, design e noções sobre patrimônio artístico, cultural e arquitetônico devem constar da formação. O projeto também explicita que os professores devem ter formação específica na área e determina um prazo de três anos para que os sistemas de educação adaptem-se às novas exigências.
Os autores destacaram a importância da arte-educação no desenvolvimento da capacidade dos alunos de lerem e analisarem o mundo em que vivem. Além disso, segundo eles, a educação para as artes reúne, de forma multidisciplinar, conhecimentos sobre diversas áreas também fundamentais da educação, como história, geografia e línguas.

Tramitação
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Educação e Cultura; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Portal da Câmara dos Deputados, 3 set. 2007.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Deitado no berço

Este Blog estará ausente nos próximos dias, deitado em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo.
Até a volta.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Quem era o sujeito?

O que vou escrever aqui deve ser lido sem esperança de correção gramatical. Da gramática, lembro algumas coisas ensinadas pela professora Josefina, em minhas 5ª e 6ª séries... Mas uma coisa que lembro é que na análise sintática do sujeito de uma frase, podíamos classificá-lo de algumas formas. Tinha o sujeito oculto (aquele que estava lá, mas não aparecia, tal como alguns dos nossos políticos atuais). Tinha também aquele sujeito que não existia, ou o que era indeterminado. Se não me engano, era a terceira pessoa do plural que referia a esses sujeitos mais obscuros, um misto de ausentes e fujões - nem claros e nem ocultos, muito pior!
Quando se lê "Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas", podemos perguntar: quem ouviu? E ficaremos nos perguntando eternamente, pois esse é justamente o tipo de sujeito que não existe ou, se existe, não se quer deixar identificar. Ai vem o problema: porque se não há certezas de que alguém - quem quer que seja - ouviu, como poderíamos saber se efetivamente foi euforicamente entonado o brado retumbante? E, o que é pior, se não houve brado, muito menos retumbante (ao menos não um brado que algum sujeito definido tivesse ouvido), fica a dúvida sobre a qualificação heróica do povo bradador!
Talvez isso tudo não passe de uma brincadeira, uma anedota contada por alguém, e justamente por isso o sujeito ouvinte, que poderia confirmar ou desmentir o fato, é inexistente. Ou no mínimo indeterminado.
É isso: brincadeira, anedota. O hino? - não, a independência!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

O cão

Certa vez ganhei de aniversário, de 3 amigos, o "Almanaque para 1949 do Barão de Itararé. É comédia de um jeito que já não se faz... De lá, busquei a seguinte brincadiera:

Duante a noite, Diogenes caminhava pelas ruas de Atenas , com uma lanterna acesa na mão. durante o dia, porém, dormia profundamente, como costumam os gurada-noturnos da atualidade. Vivia miseravelmente, mas nunca quiz aceitar um emprego de vigia de predios em construção, pois êle achava que isso já seria cinismo demais.

Seriedades à parte - seja quanto ao próprio Diógenes, seja quanto à condição de trabalho na atualidade - a história de Diógenes, chamado de O Cão, e uma das mais caricaturadas pelos filósofos da atualidade. Para conhecer mais, veja um site simples e interessante - clique aqui.
Aliás, para conhecer histórias e pensamentos de filósofos da antigüidade (e também para se divertir), nada como a Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio (esse é outro Diógenes).

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Sobre a Ditadura

Acaba de ser lançado o livro Direito à memória e à verdade, da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Trata-se do resultado de 11 anos de pesquisas da Comissão, na parte aberta dos arquivos da Ditadura Militar no Brasil.
Às vezes nos referimos à Ditadura como um período relativamente curto e pertencente a um passado distante. Infelismente não o é. Lembremos que ela durou 25 anos (1964-1989), e terminou há menos de 2 décadas (quantos dos leitores deste blog nasceram, como eu, ainda sob o regime ditatorial?).
O livro tem distribuição eletrônica gratuita, podendo ser acessado neste link.
Méritos aos bons préstimos do nosso governo à história passada e futura do país.
Reproduzo abaixo a Apresentação da obra:

Este livro-relatório tem como objetivo contribuir para que o Brasil avance na consolidação do respeito aos Direitos Humanos, sem medo de conhecer a sua história recente. A violência, que ainda hoje assusta o País como ameaça ao impulso de crescimento e de inclusão social em curso deita raízes em nosso passado escravista e paga tributo às duas ditaduras do século 20.
Jogar luz no período de sombras e abrir todas as informações sobre violações de Direitos Humanos ocorridas no último ciclo ditatorial são imperativos urgentes de uma nação que reivindica, com legitimidade, novo status no cenário internacional e nos mecanismos dirigentes da ONU.
Ao registrar para os anais da história e divulgar o trabalho realizado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos ao longo de 11 anos, esta publicação representa novo passo numa caminhada de quatro décadas. Nessa jornada, uniram-se para um esforço conjunto brasileiros que se opunham na arena política imediata.
Sob a gestão de Nelson Jobim no Ministério da Justiça, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, o Estado brasileiro reconheceu sua responsabilidade frente à questão dos opositores que foram mortos pelo aparelho repressivo do regime militar. Papel decisivo nessa conquista tiveram os familiares dos mortos e desaparecidos, com sua perseverança e tenacidade, e o futuro ministro José Gregori, então chefe
de Gabinete do Ministério da Justiça.
O Executivo Federal preparou um projeto que o parlamento brasileiro transformou em lei em dezembro de 1995, criando uma Comissão Especial com três tarefas: reconhecer formalmente caso por caso, aprovar a reparação indenizatória e buscar a localização dos restos mortais que nunca foram entregues para sepultamento. A Comissão Especial manteve uma coerente linha de continuidade atravessando, até o momento, quatro mandatos presidenciais. Durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei foi ampliada em sua abrangência e praticamente se concluiu o exame de todos os casos apresentados.
Uma dupla face deste Brasil que rompe o século 21 – com sonhos e desafios novos – saltará à vista dos leitores deste livro, sejam eles vítimas do período ditatorial, sejam eles apoiadores daquele regime, sejam juízes, procuradores, parlamentares, autoridades do Executivo, jornalistas, estudantes, trabalhadores, cidadãos e cidadãs de todas as áreas.
Uma face é a do país que vem fortalecendo suas instituições democráticas há mais de 20 anos. É a face boa, estimulante e promissora de uma nação que parece ter optado definitivamente pela democracia, entendendo que ela representa um poderoso escudo contra os impulsos do ódio e da guerra, que sempre se alimentam da opressão.
A leitura também mostrará uma outra face. É aquela percebida nos obstáculos que foram encontrados por quem exige conhecer a verdade, com destaque para quem reclama o direito milenar e sagrado de sepultar seus entes queridos. Na história da humanidade, os povos mais sanguinários interrompiam suas batalhas em curtas tréguas para troca de cadáveres, possibilitando a cada exército, tribo ou nação prantear
seus mortos, fazendo do funeral o encerramento simbólico do ciclo da vida.
Nenhum espírito de revanchismo ou nostalgia do passado será capaz de seduzir o espírito nacional, assim como o silêncio e a omissão funcionarão, na prática, como barreira para a superação de um passado que ninguém quer de volta.
O lançamento deste livro na data que marca 28 anos da publicação da Lei de Anistia, em 1979, sinaliza a busca de concórdia, o sentimento de reconciliação e os objetivos humanitários que moveram os 11 anos de trabalho da Comissão Especial.

Paulo Vannuchi
Ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República

Marco Antônio Rodrigues Barbosa
Presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

Filosofia e Educação

É sempre espantoso (no sentido filosófico) observar como somos capazes ver coisas diferentes em um mesmo objeto, dependendo do "lugar" de onde olhamos. Lembro-me de como eu via a Universidade quando era aluno - e me esforço por manter, ao menos em parte, aquele modo de olhar. Naqueles momentos, eu nem imaginava os imensos debates que se travam em seu interior, na tentativa de se estabelecer as bases para uma mudança mais significativa nos processo de ensino.

Questões simples, como a necessidade da Universidade ensinar (não é a universidade quem ensina, mas...) coisas efetivamente importantes à vida das pessoas que nelas aprendem - e, acredito, todos apendem quando circulam pela Universidade - são tratadas com extrema dificuldade, provavelmente em função de toda a tradição universitária consolidada ao longo de séculos.
Talvez por ser minha praia, vejo esta situação de forma ainda mais problemática quando lidamos com licenciaturas: muitas vezes a forma tradicional com que nós, professores, aprendemos é a forma como ensinamos os alunos que, em breve, estarão ensinando nas escolas de educação básica. E chegando neste nível, na educação básica, a diferença entre a tradição cristalizada e conteudista e a realidade vivida pelos estudantes se torna uma barreira muitas vezes impeditiva de se estabelecer a própria comunicação. É isso que vivi quando eu lecionava para o Ensino Médio, e também o que tenho ouvido nos relatos de muitos professores da educação básica: parece que o que os professores falam, não é entendido pelos alunos. Parece não, é!
Mas, por outro lado, não se pode negar o considerável acesso à informação de que dispõem os jovens de hoje. Internet, rádios e televisões, mídia impressa, publicidades diversas etc., etc., etc. Talvez (e isso é uma hipótese) o problema da educação não esteja tão centrado no despreparo dos estudantes, tal como eu tenho ouvido repetidamente ao longo dos últimos anos, mas numa falta de sintonia entre "ensinantes" e estudantes. Numa palavra, talvez falte romper os limites da tradição para ouvir o que o outro tem a dizer.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Desigualdade social

Reproduzo abaixo matéria publicada hoje no Diário On Line, do jornal Diário do Grande ABC. De volta à velha reflexão sobre desigualdade social e injustiça racial no Brasil...

10% mais ricos gastam dez vezes mais que os 40% mais pobres
Do Diário OnLine
Um estudo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgado nesta quarta-feira apontou que 10% das famílias com mais rendimentos do país (igual ou maior que R$ 3.875,78) gastam dez vezes mais que os 40% mais pobres (rendimentos de até R$ 758,25). Em 2003, as famílias mais pobres tinham despesa per capita de aproximadamente R$ 180, ao passo que as mais ricas apresentavam despesa per capita de cerca de R$ 1,8 mil. De acordo com a pesquisa, o setor de habitação respondeu por 35,5% do gasto total das 48,5 milhões de famílias estimadas na POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares 2002-2003), seguido por alimentação (20,75%), transporte (18,44%), assistência à saúde (6,49%) e educação (4,08%). Diferenças - A despesa média mensal das famílias onde a pessoa de referência era branca foi de R$ 2.262,24, 25% superior à média nacional (R$ 1.794,32). Naquelas onde o chefe era negro, de R$ 1.245,09, e pardo de R$ 1.232,62. Do ponto de vista da religião, o maior rendimento médio mensal foi encontrado em famílias com pessoa de referência espírita (R$ 3.796), e o menor em evangélicos pentecostais (R$ 1.271). Entre católicos apostólicos romanos, o rendimento correspondia a R$ 1.790,56.Pela escolaridade, famílias onde os responsáveis tinham 11 ou mais anos de estudo tinham renda mais elevada (R$ 3.796), enquanto que, naquelas com menos de um ano de instrução, ela foi aproximadamente cinco vezes menor (R$ 752). As famílias das áreas urbanas gastaram mais do que as rurais, o que ocorreu para todas as características investigadas.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Notícias desta América

Estes são os últimos dias para inscrição no curso de pós-graduação/especialização em Filosofia, Educação e Pensamento Social na América Latina. O curso é coordenador pelos professores Suze de Oliveira Piza e Oswaldo de Oliveira Santos Jr., que têm amplos conhecimentos no campo do pensamento latino-americano. Para conhecer mais detalhes do curso e se inscrever, clique aqui.

domingo, 26 de agosto de 2007

Filosofia e educação

Sábado passado ministrei um curso com o tema Ética e disciplina na sala de aulas, voltado especialmente para professores e professoras da rede pública de ensino. Foi a segunda vez em que repeti uma mesma estratégia: comecei o curso apresentando a visão de Kant sobre a disciplina necessária ao processo educativo, pautando-me em seu livro Sobre a pedagogia.
O modelo proposto por Kant supõe uma educação centrada na disciplina como elemento fundamental: se não houver disciplina, não há possibilidade de educação.
Ao expor as idéias kantianas sobre o assunto, perfeitamente adequadas ao seu tempo histórico, pude constatar uma vez mais que a escola atual ainda se pauta nos valores iluministas dos mil-e-setecentos. É incrível observar como ainda predomina na instituição escolar um modelo que prima pela imposição da disciplina como forma de controle.
Isso me faz lembrar uma piada muito contada nos meios filosóficos: dizem que um sujeito que vivia na Idade Média, certa vez, deparou-se com uma máquina do tempo e a utilizou para vir aos nossos dias, em pleno Século XXI. Contam que o sujeito ficou aterrorizado ao ver o trânsito e os imensos prédios, e correu para uma igreja; lá, encontrou uma celebração carismática (coisa que levaria alguém à fogueira na era medieval!) e correu desesperadamente, buscando encontrar algo que não lhe parecesse absurdo. Então entrou numa escola e pensou: "finalmente, algo que não mudou"...
Não há como deixar de pensar na permanência da instituição escolar, inclusive a universitária, ao longo dos séculos. A disposição dos prédios, das salas, das carteiras... tudo contrário ao bem-estar dos indivíduos que a freqüentam. E se o ambiente é desagradável, só resta a disciplina impositiva como forma de controle... mas finalmente os alunos já não se dobram a ela. Sinal dos tempos?!

sábado, 25 de agosto de 2007

Brasília

Para pulicar a postagem abaixo, procurei algumas imagens de Brasília, nossa capital. Não pude deixar de lembrar do grande Oscar Niemeyer, o maior arquiteto de que já ouvi falar e em cuja obra já vivi(não só Brasília, mas o MASP com seu vão livre, por exemplo, ou ainda o Ibirapuera...).
Lembro-me de ter ouvido uma declaração dele, certa vez, de que no mundo só sobraram 2 "comunistas de verdade": o próprio Niemeyer e Fidel Castro. Ainda que discordando, há que se considerar algo de justo em sua afirmação.
Imagino a tristeza de um homem que projetou a capital do País para o governo de JK, viu-a ser ocupada pelos militares quando da deposição de Jango e durante o golpe. E agora a vê tomada pelos nossos poderes tradicionalmente corrompidos.
Junto a esta tristeza, imagino a esperança que tem de ver eguer-se da justiça a clava forte, que venha corresponder à altura da obra de um dos maiores artistas vivos do nosso país.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Ouvi dizer

Ouvi dizer que 14 advogados dos mensaleiros afirmaram que seus clientes eram inocentes.
Ouvi dizer que o suplente de senador, que assumiu no lugar do senador corrupto, não fez nada de errado, apesar de intermediar a negociação ilícita que levou o titular do cargo à renúncia.
Ouvi dizer, ainda, que o presidente do Senado não recebeu dinheiro por fora, para facilitar a vida de algumas empreiteras. Aliás, foi o presidente do senado que deu o voto decisivo para inocentar o suplente de senador já citado.
Ora, eu ouvi dizer que o próprio presidente da Comissão de Ética do Senado tinha em sua história algumas contas pagas de forma mal contada.
Mas isso não deve ser assim tão importante, se é verdade que eu ouvi dizer que o finado ACM era o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
E eu ainda ouvi dizer que, depois que ele morreu, o próprio filho assumiu a vaga deixada pelo pai.
Por falar em senadores, quando eu ouvi dizer que o Paulo Coelho (calma, ele não é senador) foi eleito para a Academira Brasileira de Letras, eu fui ver quem eram os acadêmicos. E não é que lá estavam políticos influentes, como o Ex-Presidente da República e do Senado, José Sarney; e como o Ex-Vice-Presidente da República, Marco Maciel. O Coelho, pelo menos, não levanta lebre...
Eu não ouvi dizer nada sobre as importantes obras escritas pelos senadores-acadêmicos, que os levaram à Academia. Pelo menos, não ouvi nada sobre obras que eles mesmos tenham escrito, e não seus gostwriters.
Ouvi dizer que entre os cinco deputados federais mais votados no Estado de SP, nas últimas eleições, figuravam políticos reconhecidos por sua explícita corrupção, homens que ficaram famosos porque tiveram carreiras artísticas (e não políticas) e até um, também falecido, que ficou famoso apenas por repetir seu nome insistentemente.
Poxa, eu ouvi dizer tanta coisa...

E depois dizem por ai que a Filosofia é que "viaja" nas idéias, versando sobre coisas que não condizem com o nosso mundo...

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Sobre Nietzsche

A Folha On Line, versão digital do jornal Folha de S. Paulo, remodelou sua página e, no novo lay-out, disponibilizou novamente alguns artigos antigos. Na edição de ontem foi (re)disponibilizado o capítulo introdutório do livro "Nietzsche", de Oswaldo Giacóia Jr., publicado pela Publifolha.
Interessados podem acessar o texto - clique aqui.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Notícias desta América

Depois de um feriado prolongado (só pra quem trabalha em São Bernardo do Campo) volto a postar no blog.
A Filosofia Latino-americana é ainda pouco aceita nos meios filosóficos. Talvez, em boa parte, devido à postura mais teórica e menos práxica (falei disso em uma postagem anterior, sobre Marx): se os filósofos da nossa América se ocupassem de fazer filosofia de forma mais conectada com o mundo que vivem, se preocupariam um pouco mais com a realidade que os circunda...
Mas a produção filosófica estreitamente conectada com a realidade sub-desenvolvida (ou "em desenvolvimento - ?)já possui significativa produção, e tem atualmente como principal expoente o filósofo Enrique Dussel.
Para nossa sorte, a obra de Dussel pode ser acessada on-line, no site do Instituto de Filosofia da Libertação - IFiL.
Para conhecer o site do IFiL, clique aqui.
Para acessar a obra de Enrique Dussel, clique aqui.
Boa leitura!

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

As teses e a prática

O conjunto das teses de Marx (postagem abaixo) parecem apontar para alguns poucos caminhos comuns, dentre os quais a dimensão prática da Filosofia. Trata-se de uma crítica à filosofia de gabinete, fechada sobre a escrivaninha do seu autor ou restrita às bibliotecas e aos círculos acadêmicos.
Lembro-me que Descartes também criticava essa filosofia distante da realidade, solta do mundo existente, desenraizada. No Discurso do Método ele não poupava críticas aos filósofos do seu tempo, que produziam filosofias distantes da realidade vivida. Mas o próprio Descartes, para escrever seus discursos e meditações, tracava-se isolado num quarto onde ninguém poderia incomodá-lo...
Isso faz pensar que, em se tratando de Filosofia, até mesmo o conceito de uma "filosofia prática" precisa ser esclarecido. A prática de Descartes, parece, era bem diferente da prática de Marx.
No mundo da filosofia há uma brincadeira sobre os diferentes grupos de estudiosos de Marx - grupos que têm interpretações diferentes, e ficam se degladiando (não na prática, apenas em teoria): diz-se que existem marxistas, marxianos e marxólogos. Eu não vou entrar no mérito de quem é quem nessa história. Mas não sei se muitos destes estudiosos, seja de qual grupo for, seguem de fato a dimensão prática presente em Marx - lembremos que ele foi militante político, atuando como dirigente comunista. A maioria dos marxistas-anos-ólogos que temos notícias se detém no estudo teórico. Talvez como cartesianos estudiosos da teoria emanada de Marx.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Teses de Marx sobre Feuerbach

Um dos textos certamente mais referidos nos diálogos e escritos filosóficos é justamente composto por estas breves teses de Marx sobre Feuerbach. No geral, cita-se a última das teses, mais difundida, o que me faz pensar se as demais também foram lidas pelos 'citadores'.
Dada a brevidade e importância do texto, aproveito a oportunidade para transcrevê-las aqui no blog:

TESES SOBRE FEUERBACH
Karl Marx

I - O defeito fundamental de todo materialismo anterior - inclusive o de Feuerbach - está em que só concebe o objeto, a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto ou da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse desenvolvido pelo idealismo, em posição ao materialismo, mas apenas de modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis, realmente diferentes dos objetos de pensamento; mas tampouco concebe a atividade humana como uma atividade objetiva. Por isso, em A Essência do Cristianismo, só considera como autenticamente humana a atividade teórica, enquanto a prática somente é concebida e fixada em sua manifestação judia grosseira. Portanto, não compreende a importância da atuação "revolucionária", prático-crítica.

II - O problema de se ao pensamento humano corresponde uma verdade objetiva não é um problema da teoria, e sim um pro blema prático. É na prática que o homem tem que demonstrar a verdade, isto é, a realidade, e a força, o caráter terreno de seu pensamento. O debate sobre a realidade ou a irrealidade de um pensamento isolado da prática é um problema puramente escolástico.

III - A teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. Leva, pois, forçosamente, à divisão da sociedade em duas partes, uma das quais se sobrepõe à sociedade (como, por exemplo, em Robert Owen). A coincidência da modificação das circunstâncias e da atividade humana só pode ser apreendida e racionalmente compreendida como prática transformadora.

IV - Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, do desdobramento do mundo em um mundo religioso, imaginário, e outro real. Sua tarefa consiste em decompor o mundo religioso em sua base terrena. Não vê que, uma vez realizado esse trabalho, o principal continua por fazer. Na realidade, o fato de que a base terrena se separe de si mesma e fixe nas nuvens um reino independente só pode ser explicado através da dilaceração interna e da contradição desse fundamento terreno consigo mesmo. Este último deve, portanto, primeiro ser compreendido em sua contradição e em seguida revolucionado praticamente mediante a eliminação da contradição. Por conseguinte, depois de descobrir, por exemplo na família terrena o segredo da sagrada família, é preciso criticar teoricamente aquela e transformá-la praticamente.

V - Não satisfeito com o pensamento abstrato, Feuerbach recorre à percepção sensível. Não concebe, porém, a sensibilidade como uma atividade prática, humano-sensível.

VI - Feuerbach dilui a essência religiosa na essência humana. Mas a essência humana não é algo abstrato, interior a cada indivíduo isolado. É, em sua realidade, o conjunto das relações sociais. Feuerbach, que não emprende a critica dessa essência real, vê-se, portanto, obrigado 1- a fazer caso omisso da trajetória histórica, fixar o sentimento religioso em si mesmo e pressupor um indivíduo humano abstrato, isolado; 2 - nele, a essência humana só pode ser concebida como "espécie", como generalidade interna, muda, que se limita a unir naturalmente os muitos indivíduos.

VII - Feuerbach não vê, portanto, que o "sentimento religioso" é, também, um produto social e que o indivíduo abstrato que ele analisa pertence, na realidade, a uma forma determinada de sociedade.

VIII - A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que desviam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.

IX - O máximo a que chega o materialismo perceptivo, isto é, o materialismo que não concebe a sensibilidade como uma atividade prática, é a percepção dos diferentes indivíduos isolados da "sociedade civil".

X - O ponto-de-vista do antigo materialismo é a sociedade "civil"; o do novo materialismo, a sociedade humana ou a humanidade socializada.

XI - Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de forma diferente; trata-se porém de modificá-lo.