quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O sonho do rei


Algumas frases por vezes são registradas na história como a expressão sintética de todo um tempo e de todo um movimento. Por exemplo: depois de passados tantos séculos, conhecida e consagrada a tradição dialética socrática, quanto não pudemos construir a partir de "banalidades" como "só sei que nada sei". Ou quantas vezes teria sido repetida, nos diversos idiomas, a cartesiana "penso, logo existo", como expressão de todo um conjunto de autores aos quais convencionou-se chamar de racionalistas, e mesmo como expressão daquilo tudo que forçosamente colocamos sob o título de modernidade?
Dentre tantas expressões que extrapolam seu significado ganhando sentidos muito mais amplos e fortes (cá entre nós: se, à margem de Sócrates, ouvíssemos na rua alguém dizer "só sei que nada sei", provavelmente responderíamos: então deves buscar por saber mais, meu caro, pois o saber está aí pelo mundo...), tenho como certo que a expressão do movimento anti-racista mundial foi posta em agosto de 1963 pelo pastor Martin Luther King, quando por várias vezes em seu discurso repetiu "Eu tenho um sonho". Eram muitos sonhos que, ao mesmo tempo, eram apenas um - liberdade.
Há uma tradução integral do discurso de Luther King aqui. E logo abaixo um trecho deste mesmo discurso em vídeo.

(Se alguém não entender porque tantas referências ao Mississipi, lembro do filme Mississipi em Chamas...)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Filosofia Japonesa

É comum ouvirmos na Universidade questionamentos sobre a ausência de estudos filosóficos acerca do pensamento oriental. É fato que trata-se de um pensamento muitas vezes bastante rigoroso e bem fundado (não raro, muito melhor que muitas das idéias ocidentais...) mas o fato de se construir sobre modelos paradigmáticos diversos dos nossos dificulta nossa percepção e nosso poder de julgamento sobre sua seriedade. Trocando em miúdos: como não entendemos as bases sobre as quais os pensamentos orientais são construídos, muitas vezes acabamos, por pura ignorância, descartando-os.
Nos próximos dias teremos oportunidade de um "diálogo interparadigmático", num evento acadêmico acerca do pensamento japonês. Segue abaixo a divulgação:

III COLÓQUIO INTERNACIONAL SOBRE O PENSAMENTO JAPONÊS

O perigo da técnica – perspectivas ocidentais e orientais


Data: 28 e 29 de novembro de 2008
Local: auditório da Fundação Japão
Av. Paulista, 37, 1º andar

Coordenador: Prof. Dr. Zeljko Loparic
Coordenador Adjunto: Prof. Dr. Antonio Floretino


Programação
Sexta-feira, 28 de novembro de 2008:
9:00 – Palestra: “O problema global do meio ambiente e a filosofia japonesa”
Prof. Dr. Katsuhito Inoue (Japão)
10:30 – Palestra: “A morte de Deus e a morte do Buda – O niilismo do Zaratustra de Nietzsche e o ateísmo zen-budista de Hisamatsu”
Prof. Dr. Antonio Florentino Neto (Universidade Federal de Uberlândia) 12:00 Almoço 14:00 – Palestra: “Nietzsche e o Zen-Budismo”
Prof. Dr. Oswaldo Giacoia Junior (Unicamp) 15:30 – Palestra: "Ser e sunyata: os caminhos ocidental e oriental para a ultrapassagem do caráter objetificante do pensamento"
Prof. Dr. José Carlos Michelazzo (Sociedade Brasileira de Fenomenologia)

Sábado, 29 de novembro de 2008
9:00 – Palestra: “Técnica e guerra em Heidegger e na Escola de Kyoto”
Prof. Dr. Takao Todoroki (Japão)
10:30 – Palestra: “A experiência do ´lugar da nadidade´ como fundamento da consciência religiosa (Nishida) e a resolução da ´nadidade´ do finito na infinitude verdadeira (Hegel)”
Prof. Dr. Marcos Lutz Müller (Unicamp)
12:00 Almoço
14:00 – Palestra: “Vacuidade e medium – Formas de uso da linguagem em Nishida e Nishitani”
Prof. Dr. Rolf Elberfeld (Hildesheim / Alemanha) 15:30 – Palestra: Integração vs. ultrapassamento da técnica Prof. Dr. Zeljko Loparic (Unicamp / PUC-SP)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Tolices admiráveis

Estas breves reflexões são extraídas do Almanaque para 1949, do Barão de Itararé, e levam o título de"Tolices Admiráveis. Certamente influenciado por estudar filosofia, não deixo de ver nas reflexões a figura do filósofo, que admira-se de tudo, passando por tolo:


A vida tem surpresas alucinantes. Surpresas e lições de estarrecer.

Ha certos fatos, porem, que não nos causam nenhuma admiração, não porque não sejam em si admiraveis, mas porque nos deixam simplesmente tão bestificados que nos tiram até a capacidade de raciocinar.

É verdade que a faculdade de abrir mais ou menos a boca, movida pelo espanto, varia de individuo para individuo. uns esbugalham os olhos, diante do fenomeno mais natural, ao passo que outros acham mais do que natural o fenomeno mais esbugalhante.

Os que se julgam espertos, acham que a admiração é um alarmante sintoma de ignorancia e por isso, afirmam que só o tolos se admiram. Os que se maravilham de qualquer coisa, por sua vez, se surpreendem tambem da impassibilidade dos sabidos, aos quais consideram como lamentaveis cegos e inconscientes.

O ladino se admira do tolo e não pode compreender como este se possa admirar de uma bobagem. O tolo, por seu turno, se admira de que o ladino não se admire de coisa alguma, quando ele acha tudo admiravel.

O tolo se admira de tudo porque vê em tudo uma verdade para admirar. O tolo, então, raciocina e tira uma conclusão. e, portanto, não é tolo.

O inteligente vê o fenomeno e não se admira, porque não vê nada de admiravel no que vê. Mas o homem que não chega a ver o que até os tolos vêem, não pode ser um homem inteligente.

De tudo isso só se pode concluir que o tolo, afinal, é um inteligente e que o inteligente é um tolo.

É ou não é admiravel?


(foi mantida a grafia original)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ética, de Spinoza


A Autêntica Editora, de Belo Horizonte, publicou no ano passado uma belíssima edição da Ética, de Benedictus de Spinoza. A edição bilíngüe - Latim-Português, traduzida por Tomaz Tadeu - ajuda a reavivar a leitura de um autor não raramente esquecido (apesar dos esforços da profa. Marilena Chauí, e mesmo da evidente inspiração causada no quase pop André Comte-Sponville, não tenho visto muito sobre Spinoza por aí...).
Para provocar a curiosidade de eventuais desavisados, segue a tábua de assuntos tal como descrita pelo filósofo holandês no início de sua obra:

ÉTICA
Demonstrada segundo a ordem geométrica,
e dividida em cinco partes
nas quais são tratados

I. Deus
II. A natureza e a origem da mente
III. A origem e a natureza dos afetos
IV. A servidão humana ou a força dos afetos
V. A potência do intelecto ou a liberdade humana

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sobre o prazer

Semana passada coordenei uma mesa de dabetes na UMESP, que teve por tema Filosofia além da tradição e contou com a participação dos professores Wesley Dourado, Suze Piza e Marcos Euzebio. Em função desta mesa, eu retomei há umas duas semanas minhas leituras dos filósofos chamados hedonistas - ainda que, em verdade, muitos não o sejam: para ganhar esse título, filosoficamente despresível aos olhos da tradição, parece bastar colocar-se como não-totalmente-metafísico...
Não sei se por acaso, justamente na semana passada uma colega comentou que este Blog só tem tratado de questões políticas...
Juntando os fatos, resolvi colocar-me sobre o prazer (ou em cima dele?), usando para isso uma breve poesia de Drummond, que sempre me desperta certa animalidade:

A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão,
e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Sobre a "crise"

A crise econômica é o tema da vez. É verdade que, até o momento, mais por interesses dos grandes investidores, representados pela mídia, do que por sua influência na vida do cidadão médio (no meu cotidiano, até agora, a única influência percebida foi justamente a pauta do noticiário...). Mas não deixa de ser interessante observar - como muitos têm apontado - que: (1) o velho pensamento econômico marxista, com sua lucidez, é uma das maiores fontes que tem ajudado os economistas - de esquerda e de direita - a interpretar os fatos recentes; (2) as soluções que vem sendo tentadas invariavelmente implicam em interferência do Estado na economia, princípio defendido pelo socialismo (marxista) e invariavelmente execrado pelo liberalismo e neo-liberalismo. Ou seja, quando a crise aperta, quando não é mais possível "brincar" com abstrações econômicas, tomando-as como verdade, voltamos a Marx.
As duas charges abaixo brincam com essa questão. Ajudam a pensar...